1. O exercício é simples: tome-se um rosto, crave-se nele, a golpes, como se uma árvore fosse, as coordenadas de um abismo insituável. Teríamos um rosto-folha para escrever o canto que acorda os raios e os tornados. Uma janela é um abismo e um caudal de luz, um coração que bate. Todo o coração é um poema em bailado no olhar. Uma palavra bailarina a furar a parede do rosto, a rasgar a folha. A incendiar o impossível bosque. Um canto em sombra de palavras é um desassossego- Um pasmo, um espasmo. Um estremecer de terra. Encontramos para escrever as sílabas mais velozes um rosto feito de papel, uma árvore, para as folhas mais lentas das palavras que poisam nos ramos do rosto, na nervura das mãos, as fadigas e o pó de asas que haveríamos de ter feito voar, quando as borboletas parecia voarem todas na mesma direcção para a alma da Saudade, para o poço das águas cativas que a ninguém perdoa o sonho de vir à superfície do desenho desbotado, o espanto e a surpresa de uma fotografia a perder as formas na água de um jardim que fazia cair sobre o inverno uma neve com desenhos conhecidos: flocos e raízes de uma árvore da inocência: a árvore de nenhum lugar do tempo. Toda a árvore é uma culpa e um choro futuros, toda a morte é uma lágrima a subir. Todo o Silêncio é um véu sobre toda a casa e sobre a cidade encharcada de chuva e de palavras com cores de querer voar. Todo rosto é Natal e o Natal é choro dentro da Alegria. Um rosto devolvido a um buraco vazio.
domingo, 29 de Novembro de 2009
Escrever sobre o Rosto
1. O exercício é simples: tome-se um rosto, crave-se nele, a golpes, como se uma árvore fosse, as coordenadas de um abismo insituável. Teríamos um rosto-folha para escrever o canto que acorda os raios e os tornados. Uma janela é um abismo e um caudal de luz, um coração que bate. Todo o coração é um poema em bailado no olhar. Uma palavra bailarina a furar a parede do rosto, a rasgar a folha. A incendiar o impossível bosque. Um canto em sombra de palavras é um desassossego- Um pasmo, um espasmo. Um estremecer de terra. Encontramos para escrever as sílabas mais velozes um rosto feito de papel, uma árvore, para as folhas mais lentas das palavras que poisam nos ramos do rosto, na nervura das mãos, as fadigas e o pó de asas que haveríamos de ter feito voar, quando as borboletas parecia voarem todas na mesma direcção para a alma da Saudade, para o poço das águas cativas que a ninguém perdoa o sonho de vir à superfície do desenho desbotado, o espanto e a surpresa de uma fotografia a perder as formas na água de um jardim que fazia cair sobre o inverno uma neve com desenhos conhecidos: flocos e raízes de uma árvore da inocência: a árvore de nenhum lugar do tempo. Toda a árvore é uma culpa e um choro futuros, toda a morte é uma lágrima a subir. Todo o Silêncio é um véu sobre toda a casa e sobre a cidade encharcada de chuva e de palavras com cores de querer voar. Todo rosto é Natal e o Natal é choro dentro da Alegria. Um rosto devolvido a um buraco vazio.
sábado, 28 de Novembro de 2009
sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
Anjos e Rosas - Natal da Véspera
Não há palavras. O olhar escureceu.
As pérolas fechadas do colar soltaram-se
Rebolaram as contas pelo tampo da mesa
Chegaram ao canteiro das rosas pela janela do frio
As asas imóveis colaram a boca
Ao frio da terra sem neve ainda.
Chove cinza do céu.
O texto é uma fala com ruídos de queda.
Caem, da gravidade do olhar,
As sombras dentro da construção do espaço
do esquecimento das asas
sobre a superfície arrefecida das horas.
De costas voltadas,
a boca do anjo é um sopro mudo, uma tragédia
e uma revelação estilhaçados.
À volta dos olhos, a figura é ícone vazio
O alfabeto dos anjos é uma narrativa incompreensível
O Natal é um conto mudo, em pedra escura.
Os cheiros da terra seguem o caminho
das borboletas. As borboletas têm rápidos
movimentos em direcção à boca fechada
Um laço prende a asa do anjo ao desastre do som
Das horas partidas. A memória é um cristal frágil
Qualquer movimento do pensamento a quebra
Ou a atravessa em longos parágrafos
numa língua nórdica e incompreensível.
Havia dois anjos: um deles tapava a boca com os olhos
O outro, congelou as asas.
Cortadas com um bistúri, as asas rígidas
perderam a flor das penas,
o canto vazio do voo.
A luz fugiu por instantes de dentro das coisas
E acordar é a única saída para o frio do mundo.
Voar é a única possibilidade para atravessar o deserto
As rosas são a única possibilidade de insuflar vida às asas
Os espinhos doem tanto, como o corte das mãos
Quando o anjo, retirou do bico do pássaro
A canção que tem vento nas asas.
O segredo de voar, o sangue da rosa.
Os pássaros são anjos miúdos e saram as feridas
Como quem cose com finos bicos de oiro
As feridas da boca e o frio da alma do inverno...
E o suave milagre das pétalas das rosas
Em canto tardio do Futuro da Véspera
quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Lembrança

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
Para lá do Rochedo - O Gigante

(Para o Ulisses, com o coração de Mãe em ar-dor)
A lua deitada como uma barca sobre o escuro céu, interioriza o inverno, agasalha-o, enrola em espessos véus a distância. Os cabelos, atei-os à cintura, deixei-os escorrer pela estrada do céu, leito de prata, caminho!
Estrelas que refulgem brilhos, pratas e cristais _______________________________________________________________________
Chegam mais alto no céu afundado em Saudade!
Cantam em coro as vozes dos antigos altares!
Em segredo calam, em oração gritam exalam e oram:
- Levai-me a ver o mar, estrela candente!
Levai a ardente prata do olhar
Para coroar os prateados cabelos de Ulisses.
Na noite, o rosto de Penélope entardecer grego
Como um velo de asa de corvo nos gestos
Que o vento agita e enrola
Sereia de encantar e de cantar
O olhar em ogiva, asa de gaivota aflita
Chama por sua Voz a pranteada Mãe.
Levantadas em triângulo, as mãos,
São como cálice
São como colo
Choram
As tuas mãos bordam o mar
Um conto de Natal - Narrativa - Oração

Aqui vos deixo um suave conto de Natal…
Queridos Anjos e Poetas,
Queridos Leitores,
Por qualquer razão que desconheço (e ouso chamar de razão, por não me vir à mente outra palavra mais apropriada ao nada racional que quero exprimir), a simples queda de um anjo, teve eco em mim. Calou fundo e alto. Ainda em mim agora se faz nisso que é, Silêncio e Canto. Em um dia de Inverno - lembro-o, porque era Natal, e no Natal o que nasce, nasce mortal, mesmo que tendo o rosto de um Rei que não é deste mundo, mas dele recebendo a mesma luz que nos puxa as asas para cima e nos faz rodar, voar, de visitação. Em Janeiros de alma, se me tem ganho o pensamento em novas asas e o corpo em novos e subtis perfumes.
Vem, sem ser anunciada, essa lembrança de um dia de Inverno, creio que ao recebê-la, o que me cala me faz disso testemunha. O a quem não dou limite ou cor ou forma, ou tempo, ou espaço ou lugar, pois que é em tudo um tudo nada. Em tudo É. Com e na sua “Cor”(que não é cor nenhuma e todas elas). Querermos olhar o nosso rosto ao alto e em frente, ou quebrá-lo. Como aconteceu ao anjo de Rilke. Por qualquer razão que desconheço se me perdeu nessa queda a razão.
Nesse dia de Inverno pouco significante ou significativo ou não, para o que agora lhes vou contar, como se história contada a alguém que, sendo eu mesma, me olha admirada e surpresa, a minha interlocutora atenta. Limpo como a neve é, o seu coração, o espelho dele não deforma, conforta e conforma. O espelho dado que me olha atrás da cabeça, em Fogo e febre se purifica, mais ao terreno do Corpo, veículo da alma, Espírito e Verdade que sabemos que Há, em cada gesto inocente, em cada capricho da infância. Sabêmo-la coberta de Ouro. Uma tal Verdade fez emudecer Orpheu, o da lira escura e funda do silente canto. Uma estória como a que guardam as tradições, como uma simples imagem do presépio. A que do cimo canta, ao lado da Estrela. Quem sabe, assim pensando, me vá a estória contando o que não tem relato possível.
O que não tem, por ser palavra de poeta e verbo divino, para além dos limites da linguagem e de qualquer lugar terreno, um chão que, seguro, o homem pise, muito menos onde deitar a cabeça tem, o homem lugar. Pode sempre aprender a voar! Pode sempre aprender a voar! – Ouvi dizer o vento!
O tempo, por ser o mais imóvel e giratório e sem fundo possível, o tempo não tinha, no terreno movente e líquido do mundo, onde a história assentasse os pés, mesmo azuis. Não há lugar. Mas a alma percorre vias e abre correntes, brisas, para arder em Espírito.
Nisso, meus queridos poetas, somos cegos e mudos ficaremos. Resta-nos, entretanto, a fala chã dos homens para contar o impossível. Seja ele o conto e o canto, seja a brisa quem pode e sabe dizer da história dos poetas e dos jardins. Mal seria que isso fosse possível! Como ousar, mesmo afeiçoando o verbo ao brilho das estrelas, como ousar usar o Verbo para tão “mundanal” desejo: o de contar jardins!?
Há que levantar do chão, o anjo que caiu. Esta é a história simples e tão rica em complexas vias, caminhos e labirintos. A história do jardim que encontrou a alma e olhou o Espírito que nos reúne, humanos, à roda de uma mesa de vozes, de um jardim de cantos, em diálogo! Em relatos que são vias espirituais, fulgurações, revelações ainda que de matéria densa do que nos sabemos desejo de transcendência! Caminho de Liberdade!
Somo vozes de terra, como que feitos de matéria pesada: madeira, pedra, metal, voam connosco no texto. São vozes de Jardim diferido. Órfãs à nascença, trazidas, devolvidas à terra pelo Sonho que as ergueu. Dar disso testemunho!
É um Jardim construído de palavras e, pela subtileza delas, arrancado à mesma terra onde estava preso. Isso mesmo é ser jardineiro de um Jardim onde se entra pelo cimo, pois que de outro modo se não vê o chão! Que seja ele de centelha e pó, seja Revelação! Amor de Amar! Pois de mistério e milagre são feitos os gestos que dão a Vida: palco e espectáculo de muita contida contemplação e de muita exaltada dança, também. Muitas formas e gestos e risos e frenéticas danças se tomam no mesmo palco e na mesma cena em que se chora, qual Orpheu desterrado e mudo, o Silêncio dorido de uma fala. Faça-se clara a voz, que claro é o dia!
Meus queridos Amigos. Quem sabe, tu, meu Mestre!? Poeta! Uma memória trazida para o palco de um simples reiterado e repetido tombar no chão de anjo antes caido!? Deixei cair, AGORA, tendo partido as frágeis asas, um novo anjo do jardim!
Fechei os olhos um momento para saborear o que lembro, e leio estas que agora vos deixo no jardim: palavras e rosas! Mudas, para nada as quero! Que os canais dos sentidos façam correr a nova de que o "desastre" aconteceu em um meio-dia de hoje. Se houver tempo contado, no ponto em que não há, no jardim e no i-mundo mundo, criatura mais terrível do que o homem: terrível e belo, como a Origem que não tem padrões nem limites de os ter.
Depois da infância eterna, de que o rosto é sinal, de que o eterno nos vela, como anjo quebrado, de novo, mesmo Agora! E esse Agora pede para ser, não colado, como quem remenda as asas a Deus, não! Agora só confiando, a verdade à Verdade, a fé à Fé vivida. É preciso recolher o anjo, compor-lhe as asas. E, Agora, porque para ouvir os sinais, há primeiro que ser Silêncio e nele depois, em Ómega e em Alfa mergulhar, no fim do fim! Entre ambos, nos foi dado mergulhar e/ou renascer.
Assim, sem mais, o Amor nos conta uma história que demora a contar-se o que for de demorar. Entreguemos a alma e a Palavra a fazer-se linguagem, caminho de Poetas, caminho de sofrida perdição: de Lugar, de Tempo e de Ser. Uma perdição que é um Canto distinto e nítido na impossível névoa em redor. Uma impossibilidade possível, paradoxo vivo de ser. Labirinto que chega à consciência do lúcido construtor. Quem sabe nos ouve Aquele?
Porque ouvir os sinais é orar em canto, sem medo. Errar e perder. Saber que este chão que se move e não tem assento debaixo dos pés é a nossa pátria, da mesma matéria inexistente da que existe nos céus. Do mesmo fundo sem fundo de onde se vê Deus. Tábua de esmeralda da minha Vida!
Vista ficção da realidade e da sinceridade e cuidado com que procuro fazê-lo e falho! Pode o “meu” rosto ficar em carne viva, como a Ele, o que teve que morrer, o corpo ficou; pode rasgar-se-me, de alto a baixo a pele, como lâmina ou raio fulminante... Nada impedirá, Poeta Amigo, que a flor da verdade (seja ela o que for para cada um), brote da minha boca - inocente, creia-me – ignorante da história que “nos” vai sendo ficção verdadeira.
Neste infinito lugar onde finitos nos sabemos, um qualquer espelho brilhou na minha face e o que viu, rasgou como um raio, petrificando o momento, partindo ou abrindo, de ponta a ponta, a face do mistério.
A crer que se nasce quando se acorda e, quando acordados, nos despojamos de um resto de tudo o que é supérfluo excedente. Vejo-me no jardim um pobre e velho pedaço de madeira, a flutuar nas águas e a cantar o canto da terra Mãe que nos recebe agradada, quem sabe de ouvir a nossa voz despir-se, e, cansada, levar a água aos lábios. A água do rio do esquecimento. Olhando para a transparência dela vejo, lá no fundo, trazido à Luz, esse anjo que voltou a cair este Inverno.
(Dedicado aos leitores do jardim. Este Jardim de Inverno, este Natal da alma, no Tempo, entrado no jardim. Entre infinitos!).
domingo, 22 de Novembro de 2009
Canto e Lamento de Outono

Fonte: Imagem retirada do Google
Mais alto ainda, sempre mais alto,
De nossa terra tu te arremessas,
Qual vapor inflamado;
Tua asa vence o abismo azul,
E sobes, cantando e subindo cantas sempre.
Shelley
O que eu queria mesmo era que os teus olhos fossem brasa, clarões, quando olhassem o rosto em fogo de uma guitarra espanhola, ao espelho de uma cruz e de um desejo. Estremeço por entre as palmas e as vogais abertas o meu choro encarnado; o meu corpo saudoso das asas. O que eu queria era que os teus pés florissem no ritmo da memória, no bater do tacão das noites acordadas no rio em festa do peito em chamas: Guadalquibir do deserto andaluz! Mar mais além! Medo do toque do carvão dos olhos; medo de uma travessia de excessos no deserto sofrido do canto de entrega A-Deus. O canto do meu Amor é de sangue e de Rosa!
Como um canteiro de sombra no chão coberto de folhas, Penélope de olhos gregos no colo, olha o entretecido bordado das horas, na face clara do mar - Ai, memórias! Quem as pudera bordar no tecido da alma! Colhe-as o dia para pôr na jarra branca, onde os lírios deixam cair as folhas na toalha de uma ausente palavra, saboreada como um fruto antecipado.
As árvores, no bosque do céu, são como ogivas, rosáceas de uma adiada Granada… De uma memória de azulejos partidos na tarde de pedra rendilhada. Uma solidão consentida e com sentido.
O que eu queria mesmo era que a noite se apressasse e a fogueira se apagasse, para que as palmas dos teus dedos fossem barco no meu ventre em flor, no mar repousado da noite. Na maré dos astros e dos ventos, na calada escuridão que faz com que a lua, por onde chega, abra em flor e clarão o amor que dorme no ventre escuro do jardim. E que do vento, como corcel ofegante, se me chegassem as tuas palmas, a trazer-me o caminho e a dança, o caminho da semente que na palma da tua mão fosse oferta de um reino fértil. Roda de um novo germinar. Um reino onde os sons dos passos, na noite chegada do pó, fossem, o único ritmo a coroar o silêncio, como quem se demora, como quem nunca chega antes do encantado canto da cotovia distante.
O que eu queria mesmo, em certos momentos de funda nostalgia, era louvar o sofrimento de Amor e agradecer. Como quem segura e aperta a tensa corda que o sustenta, para mais plenamente sentir a antecipada ferida de deixar de querer-te, ó bem amado jardim da minha alma, jardim de meu viver! A distância... meu filho, a distância!
É esse o sofrimento que em Saudade me vive e em dor futura se projecta, e me dói mais do que a presença ausente do abandono de mim, do emudecer da flor, a dormir dentro da terra escura, a morrer de nascimento. Paradoxalmente, é também essa, em êxtase, a minha mais funda Alegria.
O anjo de Rilke contempla, no meu peito, de mim mesma chorando, este desejo ardente. Fá-lo em nome da memória do grande nascimento e movimento que emudecido, comovido e mudo nada silencia, e caminhando dentro de si, não sai do mesmo angustiante solo. O que eu queria er que a semente saísse da funda treve e germinasse as suas raízes no alto firmamento. Raizes que deitam para a terra o choro das suas ramas, das suas folhas, da floresta que em nós é fundo bosque que procura o que há-de ser fruto e semente, até ser fruto e semente. Até ser...
Uma semente completa, redonda e perfeita. Nela a potência se transforma em acto e a Vida se consuma. E o homem busca o que se revela e velado é o mistério da sua mesma face. Uma semente que ainda se não completou é uma Alegria eivada de Tristeza. Uma ânsia divina. Um desejo de céu e de Distância!
sábado, 21 de Novembro de 2009
"Passos em volta" do Jardim
Pela cidade branca a soar passos
no templo natural do olhar na flor vioeleta do muro,
Um som acorda os passos naturais do templo.
Como é deserto o coração da Noite!
Como moem Saudade as vozes e as velas
do moinho do Tempo!
A alma, espectro de luz, caminha mascarada,
entre o som e o silêncio
Sombra viva da minha morte
A crescer nas paredes!
O peito a nascer canto
Os sons, os sinos e as sombras!
Do nó do sofrimento, nascem maceradas pétalas,
Palavras limpam os olhos,
entornam fontes
A externa luz que fecha a cidade e a vida à chave,
como se fora monja a escadaria
Que vai dar ao ritmo do bater do sino do peito
Oração: estrela a arder
no alto campanário
de uma silente chama
quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
Sobrevoando "O Canto dos Seres"
Imagem de Jacek Yerca
Pedro Sinde, "O Canto dos Seres - saudade da natureza"
Há tantos olhares para a linguagem da pedra, para o seu colo e assento, para a solidez subtil da sua prece. À tua volta tudo se move e dança. Alguém que dançou perto do solcaiu exausto. Uma semente é o bosque inteiro. Nasce da expressão de mil asas e cantos. Idades do ouro de que retornarão sem tempo de chegada ou de partida, os que partem na busca de alguma coisa que lhes falta. Na plena percepção de uma mais do que pleno sentimento do denso mistério do mundo, o eterno já ali da Alegria e também da Tristeza. Há que saborear o Silêncio ou coroá-lo do som que nos afoga em canto, a natureza de todos os seres i-nexistentes.
quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
Um Quase Tudo Silêncio
Caem, entre silêncios,
Três claros sons:
Sinos tangendo na manhã
O cimo de uma nota suspensa na distância.
Três espigas compõem o silêncio do vale
Entre o céu e a terra,
Nem uma palavra me rasga a sede!
Divide a meio a paisagem
O olho está dentro do alvo
Entre o Silêncio e o quebrar do ovo
Uma seta caiu:
Um crisântemo à muda cor da Voz
Entre ambos, desvela-se o Silêncio
Voz cega !
Mudo olhar sem boca!
domingo, 15 de Novembro de 2009
Poesia de reclinação da hora antes do tempo

A água canta!
Quem sabe em que canteiro
dormem, ocultos, os crisântemos?
Flores de Silêncio
Viste chegar a bailarina?
Vejo que vinha cansada.
sábado, 14 de Novembro de 2009
sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
A-lux-i-nada-mente Saudade ou a outonal maneira de ser triste
Não sei. Deve ter sido no Outono, porque as folhas ferviam vermelho no ferrete do muro. Em brasa eram as horas em que descia e subia no corpo, na alma e no espírito, uma dança voraz, uma paz doce e dormente entrega, uma subida de mim à coroa, uma vontade vaga e lassa de ser triste. Coisas de mulher a quem o céu amanheceu tardio. Porque, assim, a vinha virgem ganhou aquela cor que ao branco do muro arranha, e à alma dorida faz vibrar em mais alto tom as cordas afinadas do violino breve. O poente atravessa a ponte e eu, que nem sequer existo, sou a ponte que entra no mar afunilando a distância, como uma serpente de madeira que em deserto e ondulado rio, entra invisível no azul. Não sei onde vai dar esse caminho, mas pode a vida perder-se nesse lugar: uma Veneza de alma, funâmbula, gótica. Moribunda, a lua bate no clarão do rosto em rima e som tão ardente como a clara Aurora a nascer do passado poente.
Não sei, devia de ter sido no Outono que esta vaga saudade se me nasceu alto som, e me morre, em silente dança: uma queda nascente de uma remanescente e antiquíssima Origem e fonte. Um levantado sonho, alumiando a morte, como Pascoaes prevê que seja a Vida que se esqueceu de regressar. Não sei. Não devo querer saber! Sei que a vide atou ao pescoço do limoeiro, aquela fita em fogo!
quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
Abertura do Jardim em Pura Alegria

As Três Graças - Pintura de Oleg Zhivetin
É vivendo que eu encontro o êxtase - a simples sensação de viver é pura alegria.
Emily Dickinson
A pura alegria é este céu que, doido, estendido em azul infinito, tocado pelas árvores altas, debaixo das quais a terra está a florir constantemente. Pura Alegria é a catedral dos olhos na Sé santa do subido olhar sobre a espessura criadora da Terra. Terra debaixo e no interior da qual, na irrupção do momento eterno, a pedra e o ouro nos falam em sílabas e sopros de sons e de música. Pura alegria é a alma de todas as coisas, é todas as coisas terem alma no corpo. Em nós, humanos, a pura Alegria é a participação em toda esta dança: a dança dos elementos na dança do nosso ritmo singular. Eu sou. Não para mim, não em mim, não para o outro, mas no outro. Eu sou tu. Esta é a alegria. Que velada, ou real, parece ausente na instante Presença, e é presença pura na Ausência; sombra ou luz, afinada corda, ou dissonante nota. Isso é pura alegria de achar, não de procurar. Pura alegria é um jardim ser, todo ele uma fala limpa, uma cegueira extrema.
Cantar uma canção é reconhecer o rosto desfeito da claridade, ou o escuro medo de um verbo: lâmina afiada na face fina da lua. No seu contorno nítido e brilhante. Espectro de mim, é esse avesso e direito do coração colado ao céu-da-boca. E isto é Saudade e Amor. Saudade da silente presença do que existe no deserto do coração. Amor por ser na vibração de cada átomo, em cada fibra do ser, o “milagre” da existência do mundo e a Saudade de o não haver; a quietude que não é a da montanha na paisagem, senão a interior paisagem na montanha da alma. Alma que não é a do jardim deserto, que não é só a do homem na gruta do seu coração; nem é apenas a divina centelha fora de nós, de dentro. Pura alegria é ser ébrio de tudo, na Natureza de nós. Saudade de entre a Natureza e o Homem não haver cisão, mas ligação profunda, às vezes velada, e em seus véus descoberta e despertada; pura alegria é achá-la sem a procurar, por encontrar no milagre do canto a voz de deus saudosa a murmurar. Pura alegria é aquilo que é, para lá do visível. Isso é a pura alegria! Prisma de todas as cores, no movimento que em branco néctar as mistura a todas e as faz desaparecer no olho vesica de um infinito olhar.
quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Por aí sem razão

Deserta!
Mas não é ainda
O Deserto do lugar.
O Lupanar, lupalugar!
Ando por aí parada
A perguntar
Sem querer saber
Vejo-me vir do mesmo
ou será outro mesmo
Que outonos se me revolvem
na alma?
Que lagos?
Que magos encantamentos
Que plantas
doces plantas!
Doces lagos!
Ando por aí parada, a correr
a correr; a balançar,
a balançar
A minha vida é um poema
Que ofereço
A expirar...
Ando por aí a expirar(me)
mundos!
Que mundos se me morrem nos lábios?
Que doce e mel sabor
Que amor é tal Amor!?
Como um risco na neve
Dormi-me ao de leve
segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
Oferta de Aniversário
domingo, 8 de Novembro de 2009
Nascimento
Pintura de Leonor Fini
Enrolado sobre si mesmo, as mãos no rosto, o olhar no vazio, o ser é o Nada. O olhar branco como um tubarão. Tudo é cheio. Nada espera. Nada sabe. Pleno, seguro, protegido, sente a casca que é como se fosse e não fosse o mesmo, a tocar-lhe o corpo, ao mesmo tempo dentro e fora, indivisível, uno. A mónada. A totalidade. A Alegria que não sabe que o é. A visão cega de uma membrana de luz, uma visão desconfortável do que pode ser um corpo separado do que é uno. Um ovo. Um ovo, medida de si mesmo. Origem da Origem. O corpo termina e acaba no ovalado fruto, no macio casulo; no fechado recipiente. O ser é um recipiente cheio de si, vazio do mundo. O ser respira pela boca e pelo nariz e por todo o corpo e canta. O ser canta o não ser futuro que será. O pássaro que em si tem movimentos de voo, dorme. Nada mais existe. Nada existe. Nem o sono, nem o olhar. A água morna envolve todos os poros do corpo, por dentro e por fora a mesma temperatura, por fora não há. Silêncio. O líquido é meigo, porque é alimento, o ser é um peixe colorido. O peixe nada e o canto adivinha-se, imagina-se. Nada existe em tudo. O vir a ser é um milagre. Um número redondo. Infinito. O devir é um desejo de não ser, dee regresso à Origem, onde o milagre sem forma é uma forma de milagre. O pensamento do Ovo ri. A mãe vagueia com o rosto coberto. Deixou de ver. O ovo rompeu a casca e desapareceu no mundo. A mãe segura no colo uma pedra. desaparece no ar com o rosto coberto por um lenço branco. Corre à procura do Ovo. CegaO Ovo procura a Origem e a Mãe procura no Ovo o Mistério da Criação.
sábado, 7 de Novembro de 2009
"En(t)tre Valo"

En-t-re Labirintos

Com as sandálias e a espada de seu pai, Teseu caminhou todo o dia e toda a noite e todos os dias e todas as noites até chegar ao labirinto do tempo, onde se fecha e abre a porta sem porta de onde nunca se regressa. O labirinto é um nó que se desata só com os pés descalços. As sandálias de Teseu não tinham asas e a espada não cortava o medo. Uma espada é uma lâmina para abrir a fina flor da teia. A teia era uma estrela na árvore. O leitor leu que as velas pretas para a partida seriam o luto com que o branco manto de Ariadne haveria de cobrir-lhe o rosto.
Os espelhos no labirinto eram as águas dos lagos. E os pássaros eram mudos como suspenso tempo. Entre as árvores a brisa calada trazia para a luz o silêncio dos peixes a deslizar nas águas. O som da água entre o corpo escorregadio e rápido dos peixes era como brilhos coloridos na profunda altura da luz. Não havia nenhuma gruta onde esconder o diadema. Os versos estavam seguros por um fio que escorregou das mãos de Ariadne. As sandálias do deus correram a agarrá-lo. As mãos de Ariadne voltaram a segurar o fio de lã. O oiro brilhava como uma luz que lhe saia das mãos, como uma seda amarela. A seda cobria o caminho por onde o oiro do fio passava. Ariadne entrou no labirinto por um caminho que lhe tinham ensinado os flamingos. Os flamingos levantaram voo, enquanto o deus chorava dentro de uma rocha aberta no mar. Essa rocha falava e cantava como se fosse uma ilha em forma de sereia. Uma sereia como uma ilha. Teseu trocou as velas brancas pelas velas pretas e o navio foi tocado pela ira, mergulhou no mar com o som de muita água a bater no fundo Oceano que o salvou. O mesmo que o haveria de esperar depois. O castelo de lume é um imenso labirinto onde os pés vão descalços sem deixar qualquer vestígio ou sinal. O labirinto tem à entrada a cabeça de um touro. Dentro do labirinto há borboletas que voam em círculo, asfixiadas de luz.
A voz do Oráculo calou-se. Ariadne segurava o fio e a espada levantou o punho como que para abrir a tela do tempo. A tela do tempo era um desenho em espiral, como um imenso labirinto em forma de ilha, em forma de castelo onde Dionísio costumava plantar a vinha. Ao ver a beleza de Ariadne coroa o seu amor em ouro e pedras. Tornada rainha do eterno abandono sobe aos céus corada para sempre entre a Serpente e o poderoso Hércules.
Ariadne adormece entre as sedas pretas e brancas dos navios que se movem sobre a cabeça coroada do tempo que a visita em Saudade, como o dia se afunda na profunda noite e a noite emerge e arde no altar do dia.
sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Íntima Saudade
Quando não houver
mais nada para riscar
no osso de tudo
Quero ver como vais olhar
O sol a pôr-se entre estátuas vazias?!
Um dia
quando o olhar morrer
quero ver quem levará
à flor dos lábios o sorriso do dia claro;
O beijo em concha
na água de beber dos olhos!?
Quem guardará nas mãos
As palavras não ditas?!
Em que lugar estarão cativas?
Onde irão parar as pérolas?
A que mar levará o vento a chuva de dentro?
A que cai hoje em nenhum lugar?!
Aonde irá parar a minha mágoa?
Como uma maré transbordante
para longe de mim me levará
Para onde o deserto é mais limpo
mais distante do que mais perto está!
Como lâmina em fio de névoa
Corta-me o Sol em Saudade as asas.
Um dia
quando não houver mais nada para lembrar
Haverás de cantar-me por cima do Silêncio
Como quem acha no deserto
a flor do limoeiro
E um grito verde na hortelã dos chás
Cantará por nós um canto com véus.
Uma dança de sombras
E o sonho de nelas desfazer-me
em mó de pranto e solidão!
E as pegadas no vento?
Quem as limpará no deserto onde moro?
Quem de mim me levou
e me não trouxe ao lugar onde os versos faziam sentido?
Quem tão cedo me levou em mão as rosas?
quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
Não sei se há...
Não sei se há um princípio para as coisas, ou se elas nos chegam em ecos, em memórias. Talvez as flores sempre tenham lá estado. Talvez os olhos acordem para vê-las, só de sonhá-las, quando o pensamento se encontra com a simultânea aparição do olhar que nos olha, mesmo que não estejamos lá e seja tão só o espectral olho branco da Saudade... Porque o Verão abraçou o Outono, desceu pelos raios quentes do Sol, o anjo do Real. Tinha asas nos pés e soltos os cabelos traziam a luz para ao pé das flores miúdas do jardim. Que Alegria!
Não sei se há um fim para as coisas que não tiveram um início. Sei que, no dia em que o sol bateu no botão vermelho da rosa, o coração gostou de existir e os olhos acordaram como pássaros doidos em redor da luz. Talvez aí tenham começado a nascer as folhas, as flores e os frutos.
Visto de cima, o jardim era como copas e copas de árvores, em góticas arcadas, em oiro e pó de borboletas esquecidas, queimadas no seu mesmo nascimento, em novas fulgurações de sol e de prata. Eram como bosques, as catedrais abertas; eram como terra a florir debaixo do chão.
Em baixo, dormiam as folhas, a terra, o húmus de mistério e de vento. E o jardim era um alfabeto de consoantes e vogais, como uma procissão de almas; sílabas a soletrar a luz e a bater nos muros e na flor das trepadeiras; no sorriso do hibisco e na palma de um árvore cuja origem é uma ilha longínqua a arder... uma árvore que nos ensina a cor com que se vestem as manhãs. Nascem ramos das mãos de quem ama a terra e a ela se abraça num abraço infinito e florido. Num abraço nascido da raiz. Se dá ou não fruto, é o que saberemos depois, quando o jardim se transformar de novo e uma vez, ainda, renascer do nosso olhar.
Não sei se há um princípio para as coisas... Se houver, escreve-se com palavras redondas, como frutos em gerundivo e lento despertar. Só sei que no jardim... só há o que há.
terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Danças com luas - Vozes do Jardim
Nasceu o jardim da dor, do sal e do deserto; nasceu de obscuras vozes a iluminada leitura; criou-se na oculta gruta em distante proximidade saudosa. A terra era seca e o líquido novo jorrava como sangue na terra. O Amor escreve-se no peito da paisagens, no deserto dos olhos, no prantear dos mares; na garganta verde dos rios. Pela praia da memória, a luz da face... a luz da viagem por acontecer. Há flores, montes e lagos onde se funda e afunda uma memória de luz no corpo da palavra. Uma palavra como um braço a segurar a lua; uma palavra a beber da profunda raiz das águas, uma palavra-boca a arder no deserto dos rios!
Relembro. A Saudade é o que foi para sempre na alma eterna das coisas que amanhecem depois. Lembro-me bem. Como pudera a luz da tua face incendiar-me a fronte? Ó mater dolorosa! Ó Madrinha do Mundo! Maria da Consolação dos que choram sobre os rios que passaram; consolação dos que não têm boca para a beleza do mundo! Nossa Senhora das mil e uma imagens! Nossa Senhora das Rosas! Coroai-me rainha nisso que sabeis ser do lírio e da rosa sinal.
Dentro da boca de Sibila, os rios sobem as pedras, ganham musgos os troncos do bosque e um tronco côncavo de madeira, como colo, a flutuar nas águas é uma canoa atravessada pelas vozes que se afastam, Senhora da Esperança!... E rezamos dentro das profecias pelo não regressado. A minha memória, Senhora, é como uma serpente de água que desliza no brilho das luzes que ladeiam e seguem as cores do bosque, lá para onde se põem as águas. Chamo. Vens na brisa dos ares, para ao pé das serenas horas, a pingar sol sobre as asas incendiadas de Ícaro, essa Saudade plena tecida no sonho de criar novas paisagens para chegar ao coração do homem saudoso da sua Origem ausente. Canto nessa essa ausente e chorada melodia de dentro, como pingos na gruta estalagmites da alme! Alguém terá deitado o gelo das corças para cima da palavra. Alguém terá pintado de verde os portões de bronze; a folha queimada e a coroa; o diadema delicado e gentil a boiar em mistério sobre as águas, perdidas águas em canto de violetas e tristezas! Fecham as rosas o grito.
Bendita sereis, Senhora da Saudade! a sempre eterna Mãe de tudo quanto é novo em seu antigo ovo, em sua luz fechada; em sua Luz de dentro. E a minha voz é um farol que ilumina em futuro o pensamento das palavras que hão se seguir e subir até ao cume do sem sentido do real. Há-de subir a minha voz e o gesto que a acompanha, há-de subir ao plátano para ser, de novo, em canto-chão, ave no olhar. Adormecida imagem a respirar paisagens nos olhos fechados que se acendem a oiro no jardim suspenso dos olhos. Na vesica piscis da sempre-eterna visão transparente das águas da Origem.
Na floresta havia carvalhos e catalpas, havia o choupo branco em seu tronco de prata, em sua folha verde e recortada; o círculo das folhas das olaias, o coração do plátano! Havia a flor do pinho. Aos pés do mar ardia a flor do linho!... E o meu país tem o perfume dos pinhais que emblaam a forma aérea do mar!... A suave brisa de um sorriso novo de memória atravessada por tempos que, dentro do tempo, pintam de azul os pés e deixam voar os pássaros, tentam voar com eles. Os pássaros são o soluço da folha, o chá de jasmim debaixo dos carvalhos e das acácias da ópera das rosas que não havia na terra, comparáveis às que lavravam no céu constelações de espelhos e de máscaras, coladas à verdade do iludido rosto das infinitas paisagens. Entre duas luas brancas e móveis na superfície vertiginosa e abismada dos céus, te canto, Senhora da Hora instante!
segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
O Instante da Criação
O "instante" aqui surge no movimento inseparável o "entre-dois do movimento e do repouso". Chega a espreitar a presença da luz, a forma do paradoxo do instante que não é nem princípio nem fim, antes gira no entre que presente nos acena do futuro e retorna no "Sempre" que é em nós a sombra e a luz, a vida e a morte dessa ausência presente e irrecusável do rosto que nos fita, dentro do rosto que a tudo anima de vida e nos estranha e entranha. Absolvição por deus da culpa do pecado Original da Criação.
domingo, 1 de Novembro de 2009
Catedral dos Olhos - Bizantino olhar
São flores e aves ricamente vestidas
No corpo das arcadas
No mármore azul da Líbia do olhar:
Um olhar como um pássaro, sem deixar rasto
Move-se na brandura dos céus de Constantinopla.
Há um grito engolido pelo vento
Vem do mar como se de gaivota fosse
o grito: uma memória de ébano nos cabelos
E Dimena é uma flor branca no mosaico dos dias
Para que haja som no silêncio dos passos.
Um sino recolhe as asas para o outono longe
pentear as almas como quem se veste
De linho e de perfumes da remota Istambul
da alma. Da renda do mármore no oiro da verdade
E a verdade das vides que se estendem nos muros
As romãs abertas da Saudade e tu, pomba de mim,
roças as asas na brancura das águas
Na imagem da pintura de uma catedral
De mar aberto: coração de vento e brisa e conchas
Saudade do coração do trigo, do pão do espírito
Vento chamado, ausência soprada no silêncio:
Kirie Eleison! - ouve-se dizer. E nada no humano peito
grita mais que o olhar verde das esferas do céu
O plasmado mar na grega ave que nos véus
esconde o olhar mudo: a eterna Saudade do Mar
O claro escuro do dia e da noite!
A eterna chama entre os espaços adentro
da entre-aberta porta, do entreaberto plano
A sístole e a diástole deste ser e não ser
O negro véu da noite e a espuma branca
A subir e a descer o peito das arcadas!
quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
À Deriva - Entre Tempos
3. O Poeta adentra na noite por um caminho solitário.
4. A leitora pertence ao bosque, às vozes dos pássaros nervosos e nocturnos.
Ouve-se Holderlin a abrir caminhos e a desenhar sons e sinos de campanário e cal branca, até ao abismo das paisagens entreabertas à lua e ao cansaço. Pertencem ao bosque os fios de luz, a origem e o abismo: Para voltar à origem de onde vim. É um passo apressado no jardim, um rio atravessado por uma dor curva-o (ao amor) mais para a frente ainda.
A leitora para ver regressa ao poema subindo a escada que dá para o sol. Uma laranja redonda brilha na imagem. Por detrás das folhas das árvores, das folhas que caem,o vento traz palavras e folhas sem direcção. São palavras nascidas sem gravidade, levitadas somo o salto da bailarina do conto acabado de contar.
5. Uma mesa de vidro é vertigem. Um lago de vidro, um labirinto.
6. A estrela encarnada de Rilke, a rosa de sua luz floriu na noite.
Não chove em Istambul desde que a leitura se calou.
terça-feira, 27 de Outubro de 2009
Senhora da Saudade
segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
domingo, 25 de Outubro de 2009
Clepsidra - A Hora
Outubro meado, será meia-noite no pé; e no fim do mês será a dita meia-noite uma hora acima do pé. )
Aqui no jardim bordado em pé de flor, uma floresta brilha no bastidor do tempo. Em fila, como em procissão de ecos, as árvores afastam-se dos passos. Seguem véus que varrem as folhas. Debaixo das palavras que os mudos lábios unem, o silêncio revela-se. Choramos no bosque o labirintado chão das folhas que caem na alma sem ruído nenhum. Sobem as mágoas o rio a vau. Um tapete de folhas vai subindo até ao pescoço do lago. Entrar nesse chão é fundar o lamento. Entrar na água é achar uma flor para o desassossego das harpas. Há horas que são mercúrio em esferas deitados no leito frio das águas. Bordamos no lenço a filigrana dos nossos nomes. Branco no branco, a lua é um clarão de água na face da lágrima nublada das paisagens. Os olhos são um jardim nocturno deitado no crepúsculo do lago, onde o silêncio mais se adensa no bosque soprado pelo som dos cavalos do cavaleiro cego. A voz é como pulseiras vivas na prata dos espelhos em rosto da dama. Senhora da Saudade. Ó mais que dolorosa mãe. Ó minha tão terna Amiga, como é dolorosa a solidão dentro do bosque. Tudo dorme para os lados do ribeiro, só eu velo, pedindo à noite extremosa o beijo que espera a princesa de si. Na fronte adormecida, as arvores bordam sombras e astros, no vestido dos céus. Acordamos de não haver dormido. Uma pérola na boca nos transparece rendas de uma maré mais do que perfeita. Choro.
http://sábado, 24 de Outubro de 2009
Digam que morri
Imagem retirada do Google
A criança abriu a boca e um zumbido de abelhas subiu pelo muro encostado ao aberto corredor da noite, à sua alma dissolvida no ar. Sopradas nos montes em flautas que cantam para além do som e do tocador, eternamente, as notas vibravam de presenças ausentes. Alguém chorava em uma realidade a relativa distância entre continentes, a terrível dor de ser, da morte, o hortelão de espectros, o guardador de almas. A face compassiva da fome; a ausência de deus feito presente na água onde são baptizados os filhos e ganham o nome segredado pelo vento nos cabelos. As borboletas espalharam-se e entraram na chama para arder em mitos. Alguém se separou da sua sombra e seguiu por um caminho autónomo a contar estrelas. Só para olhar para elas.
Agora, o homem do chapéu azul é um Caeiro sem Nome, e o Real é essa coisa sagrada que se ouve do som do mar a querer alcançar o perdão. O castigo dos deuses, e o ser Oceano, ou bebedor de palavras no fumo do cachimbo da consciência dos rios. O castigo dos deuses é amarem-nos. Mas o eterno e repetidoo som das ondas, a expirar ritmos de silêncio para dentro do copo de água dos lábios, não sabia se tudo era bem de provar. O Homem disse: Vou encostar o ouvido direito à terra. O corpo do Homem, os corpos dos outros mortos são o relevo dos seus montes, onde os deuses antigos, os deuses puros e claros da Grécia, se passeiaram de mãos dadas com as deusas, em jardins com estátuas que já morreram há muito, renascidos em Saudade. Estátuas e árvores nítidas, como rebanhos para o pensamento estático e extático do Real.
A casa na paisagem é uma imagem de apascentada imobilidade, enquanto a chuva cai de manso, em outonos pasmados. Tenho sobre os ombros um quente cobertor e a ilusão e miragem dos dedos que se esticam e contornam, acompanhando a paisagem que abarca o tudo que rodeia a ideia de Terra livre, vasta, sem princípio e sem fim. Ou de como o olhar se suspende a si mesmo, na busca do princípio saudoso, como se o fim já tivesse sido devorado, para grande espanto da boca, do mistério e do segredo. O que é murmura distâncias e gélidas montanhas são cascatas de gelo derretido. O que é sobe em ar rarefeito para o céu da boca, onde as palavras dormem debaixo do palato húmido da língua em céu e calam as falas do deserto: cascatas, febres, viagens. O que é murmura da distância das galáxias a familiaridade de um mesmo e irredutível não lugar. Um ponto vibrante, como se fossem asas de metal, no palato do céu estendido, horizontal e esférico da contemplação do real. Podem dizer que morri.
quinta-feira, 22 de Outubro de 2009
Mecânica do Mundo - O Insustentável Peso da Matéria
Desloca-se sobre o verde da terra. O mundo é uma mecânica rotação trasladada. Gira, lenta e vagarosa sobre si mesma, a geodésica de sal e ar. As nuvens coladas ao algodão da paisagem sobem em espiral para fora de dentro do espaço entre torres e arcos arredondados. As torres são a geometria de uma levitação. A fundura espiralada de uma maçã de Magritte, lembrada na proporção clara de um azul-mais-que-perfeito. A profundidade sobe ao cimo. A vertical surrealidade da árvore é um píncaro, uma agulha que sombreia a horizontal e deitada mancha no solo. Florirá o caduceu, a vara de Moisés, até a flor de Alexandria sobre os montes onde dorme a geografia do corpo dos homens. A montanha por onde o sol penetra até à lisura de uma polida pedra. A fragilidade do cristal e a gota do orvalho que reflecte a lua e as águas pantanosas da chuva.
Olharás o Norte com os pés serpentinados no horizonte de pedra que sombreia a montanha azul; olharás por dentro do olho em fogo do Egipto a oblíqua deliquescência das rosas e da flor da claridade. A montanha azul é atravessada por gritos. Atravessa-se o grito por um buraco na curvatura da terra. Caímos de nós próprios. As raízes são pés de tamarineira e flor de olhos. As estátuas engolem o abismo, já os limoeiros e a hortelã refrescam os botões das rosas germinadas do sol, entre círcudos concêntricos e excêntricos. Atravessa-se a montanha para se chegar ao lugar do regresso. Estará fixo ao colar da deusa um diadema de lata. O mercuriano metal dos espelhos e dos lagos. Partirás do lugar de todos os lugares equidistante do mundo; de dentro e de fora dele; e nascerás aos olhos de deus como uma luz que gira; um olho cego do sol, lugar onde a raiz é folha e o espelho do olhar se demora ternamente na semente que vai entrando na terra como dela saem as asas entre duas montanhas a eterna espiral cai na inércia dos dias pisados. Como se houvesse tempo e tudo não tivesse acabdo tão jovem em tudo o que germina. Gira sobre a roda dos dias a ausência do Real finistindo-se em canto.
terça-feira, 20 de Outubro de 2009
O Jardim das Hespérides
Imagem: Pintura de Jacek Yerka
Segue-se para a casa de Morpheu, para o seu abraço, por um caminho do bosque. Como se fossem folhas do bosque, confiantes na corrente, segue adormecida na barca da lua, a estrela da Aurora. A barca do ciclo das luas: das duas luas do não lugar de Dimena, o espírito morno e a alma lavada desse não lugar. Desaparecia durante o sono adormecido em esquife de cristal. Banha-se nela a boca de Dédalo. Entrado no labirinto, as asas cobriram o mar Egeu.
O silêncio do mar tem os pés frios. O silêncio estende-se nas águas como as tranças do esquecimento no rio Letes. Uma barca era uma lua reflectida nas Horas. As horas são da macieira os frutos, os tenros pomos. São sopros e cantos as flores do esquecimento. Despontam dos dedos de Ariadne no sonho do esquecimento. Dentro do sonho alguém lê um manuscrito. Nele está guardada a música de palavras incompreensíveis e belas, terríveis na sua luz cega, desaparecidas na água do interior, as águas que jorram do tempo e da caixa de música oculta na cabeceira, ao lado do livro que nos lê. Um livro chama para a nenhuma hora do sono. Ouve tocar uma área de um famoso músico de que esqueceu o nome. A carne e a cor da imagem dos desenhos daquela a quem lhe nascem borboletas nos dedos. De quem nasce jardim. As Horas são as poderosas raízes levantadas da terra, são as lentas barcas do esquecimento a afastarem-se. As papoilas são as flores de dormir que o cão branco mastigou. Ao lado do cão azul, reparo agora que é azul, há silêncios que navegam pela água celeste.
domingo, 18 de Outubro de 2009
O Tom e o som de Isabelina escrita - O Labirinto e os Cisnes
Os cisnes labirintam-se no espelho da água. Não há vento nem movimento. Não há som nem tom. As penas brancas flutuam como neve no interior do labirinto verde. No interior da alma dos jardins. Aguardam o silêncio da noite. Preparam-se para o sonho e para avistar a morte. Há morte bastante no sonho. A cantora fecha o piano e deita-se no espelho da água do lago, a ouvir o sono tocar. O sono é um sino que deixa de se ouvir, quando chega a luz da aurora. O silêncio fecha a noite dentro de uma caixa de música. Lentas, as palavras mergulham no sono. Uma palavra sobe em estrela e aprece noite no azul escurecido. Uma só palavra para velar as que não se perdem nem caem na água: as que se equilibram no abismo. No regresso das gaivotas, os cisnes escutam os sons que moram na montanha. A montanha tem a forma de uma onda. O silêncio espraia palavras na pena das palavras, no pingo das síabas na janela da página. O silêncio é um ovo de luz na areia. Um nascimento interior.
A Mãe veste as folhas das árvores para despi-las, depois, com solenidade. Depois da aurora, os cisnes iluminam-se; ardem sílabas na neve rosa. Os cisnes são, no sonho acordado, flamingos que chegam do passado, trazidos pelo som da Mãe. Recitam orações para as paisagens desertas do azul do rio. Há pássaros que soltam sons e desenhos no ar branco das nuvens. Ascendem-se as asas de Ícaro. Dédalo avista a ilha em branco da página que se solta do bosque revisitado. Um bosque é um templo e um leito para sonhar a infância. O labirinto estático silencia os cisnes e as gaivotas. A leitora sabe que as vozes imitam as partituras brancas dos sons amortecidos pelas nuvens e pelas penas dos cisnes. Os sons espalham-se pelas sementes que os pássaros trazem no bico da véspera. Os sonhos são símbolos a balbuciar desenhos no ouvido. As palavras são cisnes, levam a morte a cantar e trazem o sonho para o jardim. O Amor vê o que as palavras ainda não trouxeram da página da árvore. As rosas são letras desmaiadas na espelhada água entre o verde do labirinto e o branco das árvores. As árvores são nervuras finas, veios de folhas escritas com tinta azul. O peito dos cisnes é um leito de Ofélia, coberto pelas flores e folhas caídas do jardim. Os flamingos oram, levantam um pé enquanto sonham silêncios no desenho transparente da página. Da página avista-se o lugar de Parasceve. A casa abandonada da infância vai nos sonho de encontro à morte e ao ruído que fazem as palavras a adormecer sobre a folha da árvore. A folha do jardim colada, como no sonho. A leitura onírica de uma morte sonhada. Os cisnes seguram a morte ao indizível sem lugar e sem tempo que se ouve no jardim. Sopros de abandono e de beleza extrema saem dos lábios de I. Corre no meu olhar um rio de vidro e de cristal. Essa lágrima reflecte o labirinto e os cisnes, deslizando nas páginas e na voz ouvida no silêncio: a voz da leitora iluminada de letras desenhadas onde dormem poemas e as gaivotas segredam.
Para a Isabel a minha gratidão pelo tom e o som da sua escrita: leve, inspirada e, sobretudo, crente na leitura silenciosa de uma alma que se mantém suspensa na altura do seu voo. E o seu voo é um sorriso indireccionado: uma oração imóvel, espelho da infância na impermanência de tudo.
sábado, 17 de Outubro de 2009
Canção de Outono

Oiço
A voz do Silêncio sem dono e sem nome
A calar-me os versos e os dias.
Vem do não lugar da terra, o nenhum som!
Ouve o respirar trémulo dos lábios,
o nenhum grito: poema e poeta.
Em nó de nós, a voz em escuta
cobre o outono com suas amplas asas;
reza o último ramo das violetas roxas,
O raio que aquece o ar e a vinha escondidos
no largo colo da sagrada semente.
É uma terra fecunda e escura,
Um charco de lágrimas,
lama e buganvílias rubras:
um chorar, em sangue,
rente ao muro branco
do jardim da Saudade, do sal e da cal.
Um silêncio carregado de futuros
no bico inquieto dos pássaros
Uma raíz plantada no invisível
da alma de ontem e de sempre,
agita-se e treme em sílabas de ventos
assobiando serras e distâncias.
Maior do que a boca
é a palavra que me fecha
Numa terra sem fronteiras
Num universo grave
onde desponta a flor do céu
na memória da flor do lilaseiro.
Reflexo do reflexo
Vertigem desprendida da Voz
Mudo larvar dos rios
no lavrar das chamas
Do tempo que cobre de vagas sobre vagas,
o destino dos rios e dos homens.
Na boca dormem os frutos da terra,
Cantam em Silêncio as bocas verdes dos ramos:
A sagrada vertigem dos frutos!
Descem da árvore,
as silentes palavras que nos desenham:
sulcos, grãos e chuva nova.
na face germinada dos astros.
Oiço.
sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
Vasos e Jarras de Outono no Jardim
quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
As açucenas

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Onde moram? Onde moram?

Eu já fui tudo o que pensei
Já amei tudo o que fui
Até já afundei tudo isso no lago
e o lago não transbordou
de mim, nem dele.
Para onde foi, então, tudo isso?
A que Mar foi ter o pensamento
do tempo que ali havia...
Onde moram, agora,
Os meus sonhos pensados?
É disso que tenho Saudades!
Ao que não fui e ao que serei
Estendi os olhos, futuros e passados
Onde estão? Onde estão?
Os meus rios parados?!
O que fui que me lembra
em qual astro o achei?
Em que céu brilham ainda
os reflexos dos lagos
Onde moram? onde moram?
Os que fui e não sei.
terça-feira, 13 de Outubro de 2009
As mãos

Deixa cair no colo, em repouso,
as tuas mãos cativas!
Côncavas ou convexas,
Elas são o avesso e o direito
de uma mesma Saudade.
Às vezes, até parece que cantam
como pássaros implumes!
São como nuvens,
São como pássaros!
Juntas, não se prendem,
Segredam!
Ouvem em oração
o Silêncio do canto
em que voam, aturdidas!...
Separadas asas do vazio coração
da Hora plena!
Às vezes tardam, as mãos...
Às vezes são, no ar,
O traço luminoso do desejo e da espera.
Outras, dançam,
Em infinitos espaços
A eterna dança das horas:
Suspenso voo do salto cego!
E são os dedos que se agitam
e tremem na maçã do dia,
o redondo fruto de colhê-lo:
Liso e novo:
coração implume de pássaro ardente.
São como plumas, os dedos,
cativos das paisagens dos olhos.
São como rosas as pétalas dos dedos
Cativos e saudosos da ausência dos teus!
sábado, 10 de Outubro de 2009
Febre e Magnólia
Poderia encontrar as palavras, olhando para o solo, caminhando entre canteiros de roseiras, ouvindo o som dos pássaros que ficaram até que o sol se escondeu atrás do Plátano. Olhando o alto céu, sem pensar em nada, prestaria mais atenção ao botão vermelho encostado ao muro branco; sentindo o cheiro da magnólia; o perfume intenso das gardénias. Como se fosse Janeiro ou um milagre repetido abrisse em flor a alma que se afasta levando dentro de si, em arca fechada, o desejo e a ânsia. Até que tudo se encheu desse oiro silencioso de que as palavras são tecidas: o silêncio da escuta e o silêncio do que se fita. Nesse sudário, o Poeta lê uma sua palavra escrita a tinta indelével sobre o espelho da sua face. Essa palavra levita sobre a superfície da folha, sobre a lâmina de uma inconsciência cega. Um estilete desenhado no relevo da máscara de Cavaleiro do Fim dos Tempos. Esse “rei pobre de um país pobre” que se abre como um sonho, um rasgão no Real, por onde o anjo de Rilke, já cansado, derrama a estrela de ouro no templo aberto em sangue do meu coração.
DELIRAM DE FEBRE AS ASAS
Há pássaros que ainda se deitam nas folhas que adormecem o leito de Saudades. Um rio é um jardim de ofélias a navegar nas veias brancas de uma sede trasparente e brilhante. Cada bilho que semove é uma flor de luz a flutuar na tarde. Alguém baloiça com a lua entre os olhos, um suave movimento de repouso. Dentro das coisas há um entedimento pacífico que me adormece a febre, entre as árvores do bosqe que não acaba de afunilar o oiro da copa das árvores. Hoje, ao fim da noite, encontraremos um lago e só nele o nosso rosto se vê, em flor de tanta treva acesa, em archotes subindo as escadas onde Saudades espera, de olhar parado no branco da lua no retrato, a vinda do eterno.
sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
Memória

"A fita desfiada e amarela que trazes ao pescoço equilibrada nos teus dedos de
marfim, a gruta onde nos fixámos sobre o brilhante rubro; o jogo de sínteses ainda em
esboço primário na curva imensa, o rosto sem olhos atravessado por uma seta do guerreiro
do lago, do corsário oceânico, do legendário argonauta.
Persisto, idêntico e semelhante a uma multidão de garotos sem memória, na estrada
de parafusos que contornas medindo a compasso a distância quilométrica que percorres,
imagina! Imagino-te a dez quilómetros certos sem um gesto."
Imagino-te de pé, debaixo de um céu carregado de rosas, equilibrado nos ramos da árvore entre o dizer da Alegria e a distante nota de uma torre de marfim e um pingo da insónia na cera a arder dos teus cabelos de astro. Um jardim onde as torres têm abertas para o céu as oito mil direcções do tempo e do vento. Atravessada pela luz, a tua face é um pássaro de fogo a cantar oiro sobre as pedras. Os ramos desenham no corpo uma Saudade adormecida nas folhas que choram a árvore onde se sentavam a colher memórias, as Amigas saudosas do jardim. A Saudade tem, poisado sobre o dedo mínimo, um pássaro; e ao pescoço uma borboleta de cristal a rodear as torres do castelo, ao entardecer das paisagens sem palavras para pendurar nos ramos das árvores, a simples e semelhante multidão de cavalos que se atropelam no jardim acordado. Para sempre a tua imagem voando sobre um chão repleto de reflexos de rosas, brilhos de Saudades nas fontes da seda das horas. Bebo-te a imagem e amo o reflexo que me devolve saudosa e velada. A face para sempre nua de uma lua que se esconde no pano escuro e brilhante dos céus.
quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
Chuva
terça-feira, 6 de Outubro de 2009
Para onde voaram as borboletas... e o que ardeu com elas!?...
segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
domingo, 4 de Outubro de 2009
Espiral de Cal e Sal - A Serpente uroborosa
Por que canta a cotovia entre as altas ramagens? II

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
Lua de Outubro - Espelho do rio Tejo
Marinha em seu espelhar
De rio largo, de afogada sede;
De rosto azul na amurada triste!
Em âncora me prendeis: ao alto,
ao arco em asa de gaivota,
Em narciso do mar
Flor de sal à babugem das águas!
Suave escorrer do dia pelas pontes
levadas dos moinhos
e das manhãs que abrem janelas
para a flor dos vasos;
para o barco atado a uma hora sombria,
dançando sobre a suspensa maré.
Num suspender de voo e de voz
seguras os navios que sobem às arvores
onde Saudades flore em lua
no instante parado!
Abrem-se silêncios na distância;
Rio acima sobe um choro de guitarra
Bebe da luz pura da lua
a futura imagem de um cavalo de fogo
na planície deserta da noite
que cai sobre as paisagens devastadas
do teu rosto sem tempo, a velar o mar
na voz silente de marinheiros cantos.






















