domingo, 29 de Novembro de 2009

Escrever sobre o Rosto



1. O exercício é simples: tome-se um rosto, crave-se nele, a golpes, como se uma árvore fosse, as coordenadas de um abismo insituável. Teríamos um rosto-folha para escrever o canto que acorda os raios e os tornados. Uma janela é um abismo e um caudal de luz, um coração que bate. Todo o coração é um poema em bailado no olhar. Uma palavra bailarina a furar a parede do rosto, a rasgar a folha. A incendiar o impossível bosque. Um canto em sombra de palavras é um desassossego- Um pasmo, um espasmo. Um estremecer de terra. Encontramos para escrever as sílabas mais velozes um rosto feito de papel, uma árvore, para as folhas mais lentas das palavras que poisam nos ramos do rosto, na nervura das mãos, as fadigas e o pó de asas que haveríamos de ter feito voar, quando as borboletas parecia voarem todas na mesma direcção para a alma da Saudade, para o poço das águas cativas que a ninguém perdoa o sonho de vir à superfície do desenho desbotado, o espanto e a surpresa de uma fotografia a perder as formas na água de um jardim que fazia cair sobre o inverno uma neve com desenhos conhecidos: flocos e raízes de uma árvore da inocência: a árvore de nenhum lugar do tempo. Toda a árvore é uma culpa e um choro futuros, toda a morte é uma lágrima a subir. Todo o Silêncio é um véu sobre toda a casa e sobre a cidade encharcada de chuva e de palavras com cores de querer voar. Todo rosto é Natal e o Natal é choro dentro da Alegria. Um rosto devolvido a um buraco vazio.
2. Uma casa é um corpo para uma alma, um rosto para um buraco do céu, um deserto para um grão de areia. Uma casa é um choro contínuo, um pranto perpétuo. Debaixo das memórias, as palavras chocam com o som da infância, com os dedos da mãe na cara presente. Cada palavra que pisamos é um choro no soalho da casa, uma dedicação de rosas e camélias. Há vastos perfumes na ausência que cobre o olhar. Um canto é uma procissão de nostalgias, um lago do outro lado do bosque, da sílaba, do tear. Toda a palavra é ave, no soalho da casa. Um pássaro azul a querer engolir ar. Todo ser é uma memória perdida! As paredes da casa são a desconstrução do riso. Uma convenção de gestos. Uma casa inabitada é um grito mudo, um invólucro para nenhuma alma. Uma tristeza para um violino aceso. O Natal é um rosto a brilhar purpurinas. É um anjo renascido, a alma da casa que canta no texto. Um baloiço suspenso na lua, um balançar da alegria e a tontura do voo, desalmado e sem asas. Uma casa é uma construção no corpo, uma realidade sem asas, a bater à porta de um silêncio feroz: um grito de animal sem corpo.

sábado, 28 de Novembro de 2009

O Espelho Onírico das"Poisagens"


Imagem: Fotografias de Maria Sarmento

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Anjos e Rosas - Natal da Véspera





Não há palavras. O olhar escureceu.
As pérolas fechadas do colar soltaram-se
Rebolaram as contas pelo tampo da mesa
Chegaram ao canteiro das rosas pela janela do frio
As asas imóveis colaram a boca
Ao frio da terra sem neve ainda.
Chove cinza do céu.
O texto é uma fala com ruídos de queda.
Caem, da gravidade do olhar,
As sombras dentro da construção do espaço
do esquecimento das asas
sobre a superfície arrefecida das horas.


De costas voltadas,
a boca do anjo é um sopro mudo, uma tragédia
e uma revelação estilhaçados.
À volta dos olhos, a figura é ícone vazio
O alfabeto dos anjos é uma narrativa incompreensível
O Natal é um conto mudo, em pedra escura.
Os cheiros da terra seguem o caminho
das borboletas. As borboletas têm rápidos
movimentos em direcção à boca fechada
Um laço prende a asa do anjo ao desastre do som
Das horas partidas. A memória é um cristal frágil
Qualquer movimento do pensamento a quebra
Ou a atravessa em longos parágrafos
numa língua nórdica e incompreensível.
Havia dois anjos: um deles tapava a boca com os olhos


O outro, congelou as asas.
Cortadas com um bistúri, as asas rígidas
perderam a flor das penas,
o canto vazio do voo.
A luz fugiu por instantes de dentro das coisas
E acordar é a única saída para o frio do mundo.
Voar é a única possibilidade para atravessar o deserto
As rosas são a única possibilidade de insuflar vida às asas
Os espinhos doem tanto, como o corte das mãos
Quando o anjo, retirou do bico do pássaro
A canção que tem vento nas asas.
O segredo de voar, o sangue da rosa.
Os pássaros são anjos miúdos e saram as feridas
Como quem cose com finos bicos de oiro
As feridas da boca e o frio da alma do inverno...



E o suave milagre das pétalas das rosas


Em canto tardio do Futuro da Véspera

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Lembrança




Teres as mãos pequenas e nervosas como pássaros entontecidos pelo voo da luz, era apenas a minha maneira de te observar e de ser a menina que era, ave perdida no campo dos teus olhos, carvão em brasa e modo irrequieto de ser. Talvez o céu azul, nesse tempo, mostrasse pelo silêncio da casa da infância um lugar a menos à mesa. Mas tu estavas lá. Eras um olhar triste de Poeta. Eras mais um Poeta com os dedos como aves aflitas, e o canto, entre a vide e a rosa. Eras uma memória de perfumes de trigo e pão. E falavas a cantar! Ainda não tinha aberto o primeiro botão da primeira rosa do jardim, já eu balbuciava palavras a ensaiar o voo, e tu, pequeno recorte da minha mão, já conhecias o primeiro verso de um poema que ainda trago na boca. E agora, José?
Tinhas, nesse tempo (ainda tens), o sotaque cantado de um deserto novíssimo, e eras belo, como se fosses sereno. De cada vez que subia o olhar ao teu rosto, um canto se desprendia das sílabas do poema, um sabor a lonjura e a silente mágoa. Uma cumplicidade que não tinha limite, senão no gesto inocente de abrir a boca ao ar para a brisa inundar de leveza a canção que ainda hoje, comovida, escuto. Agora, quando nos virmos de novo, não me vou esquecer de te perguntar, o que em criança nunca soube: De onde vinham as ondas que se perdiam no teu sorriso? Por que caminho regressavam as asas, antes de se soltarem os dedos? Onde estão todos esses lugares da "mátria" que havia entre a praça e o jardim? Uma pátria de asas, diria eu, agora, meu Amigo. Para onde voam as palavras que nos nascem outra vez? A que raiva e dor e ravina de afectos subir para te ver voar de novo sobre a flor da tamarineira?

segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Para lá do Rochedo - O Gigante



Haverá Natal em Gibraltar?

Para lá do Rochedo?


(Para o Ulisses, com o coração de Mãe em ar-dor)


A lua deitada como uma barca sobre o escuro céu, interioriza o inverno, agasalha-o, enrola em espessos véus a distância. Os cabelos, atei-os à cintura, deixei-os escorrer pela estrada do céu, leito de prata, caminho!
Estrelas que refulgem brilhos, pratas e cristais _______________________________________________________________________
Chegam mais alto no céu afundado em Saudade!
Cantam em coro as vozes dos antigos altares!
Em segredo calam, em oração gritam exalam e oram:
- Levai-me a ver o mar, estrela candente!
Levai a ardente prata do olhar
Para coroar os prateados cabelos de Ulisses.

Na noite, o rosto de Penélope entardecer grego
Como um velo de asa de corvo nos gestos
Que o vento agita e enrola
Sereia de encantar e de cantar
O olhar em ogiva, asa de gaivota aflita
Chama por sua Voz a pranteada Mãe.
Levantadas em triângulo, as mãos,
São como cálice
São como colo
Choram
As tuas mãos bordam o mar
E à Ida é Dia!

Um conto de Natal - Narrativa - Oração


(Entrou, sem querer e sem eu dar por isso, no jardim, um texto para ler em voz baixa, sem beleza ou artifício de arte, um texto prosaico, endereçado a mim mesma. Uma carta endereçada a Ninguém.Talvez um relato para ler, sem metáforas, sentados espectros nos bancos de jardim de outrora, como que iluminado de uma aura de Saudade. É assim que o vejo e o quero. A fundura dessa voz foi vertido para um frasco, onde se guarda: a lágrima, o fogo, e o que em combustão é para arder na retorta do tempo, no forno que depura as matérias mais densas. Um Fogo para ver. Um fogo para purificar e arder!..)


- Escutando já um Natal que pode ser o Dia, a Ida!
Aqui vos deixo um suave conto de Natal…

Queridos Anjos e Poetas,
Queridos Leitores,


Por qualquer razão que desconheço (e ouso chamar de razão, por não me vir à mente outra palavra mais apropriada ao nada racional que quero exprimir), a simples queda de um anjo, teve eco em mim. Calou fundo e alto. Ainda em mim agora se faz nisso que é, Silêncio e Canto. Em um dia de Inverno - lembro-o, porque era Natal, e no Natal o que nasce, nasce mortal, mesmo que tendo o rosto de um Rei que não é deste mundo, mas dele recebendo a mesma luz que nos puxa as asas para cima e nos faz rodar, voar, de visitação. Em Janeiros de alma, se me tem ganho o pensamento em novas asas e o corpo em novos e subtis perfumes.
Vem, sem ser anunciada, essa lembrança de um dia de Inverno, creio que ao recebê-la, o que me cala me faz disso testemunha. O a quem não dou limite ou cor ou forma, ou tempo, ou espaço ou lugar, pois que é em tudo um tudo nada. Em tudo É. Com e na sua “Cor”(que não é cor nenhuma e todas elas). Querermos olhar o nosso rosto ao alto e em frente, ou quebrá-lo. Como aconteceu ao anjo de Rilke. Por qualquer razão que desconheço se me perdeu nessa queda a razão.
Nesse dia de Inverno pouco significante ou significativo ou não, para o que agora lhes vou contar, como se história contada a alguém que, sendo eu mesma, me olha admirada e surpresa, a minha interlocutora atenta. Limpo como a neve é, o seu coração, o espelho dele não deforma, conforta e conforma. O espelho dado que me olha atrás da cabeça, em Fogo e febre se purifica, mais ao terreno do Corpo, veículo da alma, Espírito e Verdade que sabemos que Há, em cada gesto inocente, em cada capricho da infância. Sabêmo-la coberta de Ouro. Uma tal Verdade fez emudecer Orpheu, o da lira escura e funda do silente canto. Uma estória como a que guardam as tradições, como uma simples imagem do presépio. A que do cimo canta, ao lado da Estrela. Quem sabe, assim pensando, me vá a estória contando o que não tem relato possível.

O que não tem, por ser palavra de poeta e verbo divino, para além dos limites da linguagem e de qualquer lugar terreno, um chão que, seguro, o homem pise, muito menos onde deitar a cabeça tem, o homem lugar. Pode sempre aprender a voar! Pode sempre aprender a voar! – Ouvi dizer o vento!
O tempo, por ser o mais imóvel e giratório e sem fundo possível, o tempo não tinha, no terreno movente e líquido do mundo, onde a história assentasse os pés, mesmo azuis. Não há lugar. Mas a alma percorre vias e abre correntes, brisas, para arder em Espírito.
Afeiçoado e tratado, como em horto deleitoso, o jardim sorria de si. O Jardim em imensa Alegria. Jardim de palavra saudoso e saudado! Para além disso, só o grão da Voz dirá o que for de dizer. Haja em nossa “cor” ouvido para a escuta!

Nisso, meus queridos poetas, somos cegos e mudos ficaremos. Resta-nos, entretanto, a fala chã dos homens para contar o impossível. Seja ele o conto e o canto, seja a brisa quem pode e sabe dizer da história dos poetas e dos jardins. Mal seria que isso fosse possível! Como ousar, mesmo afeiçoando o verbo ao brilho das estrelas, como ousar usar o Verbo para tão “mundanal” desejo: o de contar jardins!?

Há que levantar do chão, o anjo que caiu. Esta é a história simples e tão rica em complexas vias, caminhos e labirintos. A história do jardim que encontrou a alma e olhou o Espírito que nos reúne, humanos, à roda de uma mesa de vozes, de um jardim de cantos, em diálogo! Em relatos que são vias espirituais, fulgurações, revelações ainda que de matéria densa do que nos sabemos desejo de transcendência! Caminho de Liberdade!

Somo vozes de terra, como que feitos de matéria pesada: madeira, pedra, metal, voam connosco no texto. São vozes de Jardim diferido. Órfãs à nascença, trazidas, devolvidas à terra pelo Sonho que as ergueu. Dar disso testemunho!
É um Jardim construído de palavras e, pela subtileza delas, arrancado à mesma terra onde estava preso. Isso mesmo é ser jardineiro de um Jardim onde se entra pelo cimo, pois que de outro modo se não vê o chão! Que seja ele de centelha e pó, seja Revelação! Amor de Amar! Pois de mistério e milagre são feitos os gestos que dão a Vida: palco e espectáculo de muita contida contemplação e de muita exaltada dança, também. Muitas formas e gestos e risos e frenéticas danças se tomam no mesmo palco e na mesma cena em que se chora, qual Orpheu desterrado e mudo, o Silêncio dorido de uma fala. Faça-se clara a voz, que claro é o dia!
Meus queridos Amigos. Quem sabe, tu, meu Mestre!? Poeta! Uma memória trazida para o palco de um simples reiterado e repetido tombar no chão de anjo antes caido!? Deixei cair, AGORA, tendo partido as frágeis asas, um novo anjo do jardim!

Fechei os olhos um momento para saborear o que lembro, e leio estas que agora vos deixo no jardim: palavras e rosas! Mudas, para nada as quero! Que os canais dos sentidos façam correr a nova de que o "desastre" aconteceu em um meio-dia de hoje. Se houver tempo contado, no ponto em que não há, no jardim e no i-mundo mundo, criatura mais terrível do que o homem: terrível e belo, como a Origem que não tem padrões nem limites de os ter.
O mundo e nós mesmos temos uma tão frágil e milagrosa possibilidade de Vida, que será, quiçá, na Dor, na Alegria e na Graça, que se ouve para a escrita, o que o verbo enlouquecido vai criando.
Com a mesma “ficção verdadeira” me ergo à fala, para me confessar em labirinto. Confusa de lá ter entrado, confusa de lá permanecer e perdida para de lá sair! As asas, ainda estão bem, mais tarde, precisarão de ser reforçadas, por estarem frágeis de tantos voos e quedas; de tantas subidas e descidas. Quem sabe teremos tempo para morrer? Frágeis asas, de muito ter alçado o voo neste corpo que um dia se despedirá sorrindo, pacificado (assim o espero) de todas as ilusões terrenas. Depois da meninice, outra virá. Será esse o tempo! Será esse o derradeiro voo. A Verdadeira Hora que nos chegará.

Depois da infância eterna, de que o rosto é sinal, de que o eterno nos vela, como anjo quebrado, de novo, mesmo Agora! E esse Agora pede para ser, não colado, como quem remenda as asas a Deus, não! Agora só confiando, a verdade à Verdade, a fé à Fé vivida. É preciso recolher o anjo, compor-lhe as asas. E, Agora, porque para ouvir os sinais, há primeiro que ser Silêncio e nele depois, em Ómega e em Alfa mergulhar, no fim do fim! Entre ambos, nos foi dado mergulhar e/ou renascer.
Assim, sem mais, o Amor nos conta uma história que demora a contar-se o que for de demorar. Entreguemos a alma e a Palavra a fazer-se linguagem, caminho de Poetas, caminho de sofrida perdição: de Lugar, de Tempo e de Ser. Uma perdição que é um Canto distinto e nítido na impossível névoa em redor. Uma impossibilidade possível, paradoxo vivo de ser. Labirinto que chega à consciência do lúcido construtor. Quem sabe nos ouve Aquele?
Porque ouvir os sinais é orar em canto, sem medo. Errar e perder. Saber que este chão que se move e não tem assento debaixo dos pés é a nossa pátria, da mesma matéria inexistente da que existe nos céus. Do mesmo fundo sem fundo de onde se vê Deus. Tábua de esmeralda da minha Vida!

Vista ficção da realidade e da sinceridade e cuidado com que procuro fazê-lo e falho! Pode o “meu” rosto ficar em carne viva, como a Ele, o que teve que morrer, o corpo ficou; pode rasgar-se-me, de alto a baixo a pele, como lâmina ou raio fulminante... Nada impedirá, Poeta Amigo, que a flor da verdade (seja ela o que for para cada um), brote da minha boca - inocente, creia-me – ignorante da história que “nos” vai sendo ficção verdadeira.
Neste infinito lugar onde finitos nos sabemos, um qualquer espelho brilhou na minha face e o que viu, rasgou como um raio, petrificando o momento, partindo ou abrindo, de ponta a ponta, a face do mistério.

A crer que se nasce quando se acorda e, quando acordados, nos despojamos de um resto de tudo o que é supérfluo excedente. Vejo-me no jardim um pobre e velho pedaço de madeira, a flutuar nas águas e a cantar o canto da terra Mãe que nos recebe agradada, quem sabe de ouvir a nossa voz despir-se, e, cansada, levar a água aos lábios. A água do rio do esquecimento. Olhando para a transparência dela vejo, lá no fundo, trazido à Luz, esse anjo que voltou a cair este Inverno.

(Dedicado aos leitores do jardim. Este Jardim de Inverno, este Natal da alma, no Tempo, entrado no jardim. Entre infinitos!).

domingo, 22 de Novembro de 2009

Canto e Lamento de Outono


Fonte: Imagem retirada do Google

Mais alto ainda, sempre mais alto,
De nossa terra tu te arremessas,
Qual vapor inflamado;
Tua asa vence o abismo azul,
E sobes, cantando e subindo cantas sempre.



Shelley



O que eu queria mesmo era que os teus olhos fossem brasa, clarões, quando olhassem o rosto em fogo de uma guitarra espanhola, ao espelho de uma cruz e de um desejo. Estremeço por entre as palmas e as vogais abertas o meu choro encarnado; o meu corpo saudoso das asas. O que eu queria era que os teus pés florissem no ritmo da memória, no bater do tacão das noites acordadas no rio em festa do peito em chamas: Guadalquibir do deserto andaluz! Mar mais além! Medo do toque do carvão dos olhos; medo de uma travessia de excessos no deserto sofrido do canto de entrega A-Deus. O canto do meu Amor é de sangue e de Rosa!

Como um canteiro de sombra no chão coberto de folhas, Penélope de olhos gregos no colo, olha o entretecido bordado das horas, na face clara do mar - Ai, memórias! Quem as pudera bordar no tecido da alma! Colhe-as o dia para pôr na jarra branca, onde os lírios deixam cair as folhas na toalha de uma ausente palavra, saboreada como um fruto antecipado.
As árvores, no bosque do céu, são como ogivas, rosáceas de uma adiada Granada… De uma memória de azulejos partidos na tarde de pedra rendilhada. Uma solidão consentida e com sentido.

O que eu queria mesmo era que a noite se apressasse e a fogueira se apagasse, para que as palmas dos teus dedos fossem barco no meu ventre em flor, no mar repousado da noite. Na maré dos astros e dos ventos, na calada escuridão que faz com que a lua, por onde chega, abra em flor e clarão o amor que dorme no ventre escuro do jardim. E que do vento, como corcel ofegante, se me chegassem as tuas palmas, a trazer-me o caminho e a dança, o caminho da semente que na palma da tua mão fosse oferta de um reino fértil. Roda de um novo germinar. Um reino onde os sons dos passos, na noite chegada do pó, fossem, o único ritmo a coroar o silêncio, como quem se demora, como quem nunca chega antes do encantado canto da cotovia distante.

O que eu queria mesmo, em certos momentos de funda nostalgia, era louvar o sofrimento de Amor e agradecer. Como quem segura e aperta a tensa corda que o sustenta, para mais plenamente sentir a antecipada ferida de deixar de querer-te, ó bem amado jardim da minha alma, jardim de meu viver! A distância... meu filho, a distância!

É esse o sofrimento que em Saudade me vive e em dor futura se projecta, e me dói mais do que a presença ausente do abandono de mim, do emudecer da flor, a dormir dentro da terra escura, a morrer de nascimento. Paradoxalmente, é também essa, em êxtase, a minha mais funda Alegria.

O anjo de Rilke contempla, no meu peito, de mim mesma chorando, este desejo ardente. Fá-lo em nome da memória do grande nascimento e movimento que emudecido, comovido e mudo nada silencia, e caminhando dentro de si, não sai do mesmo angustiante solo. O que eu queria er que a semente saísse da funda treve e germinasse as suas raízes no alto firmamento. Raizes que deitam para a terra o choro das suas ramas, das suas folhas, da floresta que em nós é fundo bosque que procura o que há-de ser fruto e semente, até ser fruto e semente. Até ser...

Uma semente completa, redonda e perfeita. Nela a potência se transforma em acto e a Vida se consuma. E o homem busca o que se revela e velado é o mistério da sua mesma face. Uma semente que ainda se não completou é uma Alegria eivada de Tristeza. Uma ânsia divina. Um desejo de céu e de Distância!


(Expressão dorida de uma "Viagem" para longes terras. De um abandono irremissível: Agora que tu partiste, Mãe, a quem posso pedir que me tire de mim?! Viajando por outros lugares, se me vai alargando o espaço...)

sábado, 21 de Novembro de 2009

"Passos em volta" do Jardim


Andam roxas as horas, as asas da Saudade,
Pela cidade branca a soar passos
no templo natural do olhar na flor vioeleta do muro,
Um som acorda os passos naturais do templo.
Como é deserto o coração da Noite!
Como moem Saudade as vozes e as velas
do moinho do Tempo!
A alma, espectro de luz, caminha mascarada,
entre o som e o silêncio
Sombra viva da minha morte
A crescer nas paredes!
O peito a nascer canto
Os sons, os sinos e as sombras!
Do nó do sofrimento, nascem maceradas pétalas,
Palavras limpam os olhos,
entornam fontes
A externa luz que fecha a cidade e a vida à chave,
como se fora monja a escadaria
Que vai dar ao ritmo do bater do sino do peito
Oração: estrela a arder
no alto campanário
o cume e o cimo
de uma silente chama
abre o clarão da lua nos portões dos pátios
Onde até a luz é de uma crença ausente!

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Sobrevoando "O Canto dos Seres"

Imagem de Jacek Yerca

Estamos sempre, porém, atrás de uma janela. Por ela vemos o mundo e isso é uma graça;o que não sabemos, ou preferimos não saber, é que a nossa janela distorce a realidade(...) entre o nascer e o morrer há uma vida de esplendor.



Pedro Sinde, "O Canto dos Seres - saudade da natureza"



Há tantos olhares como há paisagens. Há tantos cantos quantos os seres. Cantar é manifestar, dar, ser excesso... A nossa percepção da realidade é representação, o espectáculo é o mundo. No jardim, os ciclos são a natureza a expressar-se na boca dos poetas e dos que têm, a nascer da morte, uma nova folha, uma nova semente e até uma nova paisagem para um novo olhar. Quero dizer, nascemos e morremos continuamente e iso é eternidade e instante. Quando se toca o nascer e o morrer, o olhar é borboleta. Das suas frágeis asas nasce a flor no centro do jardim, a flor do sofrimento. O mundo atravessa e inunda as folhas de luz. O alto mar é um deserto movente e líquido. A vida é um clarão. Ouvimos o som do jardim, porque estamos nele com asas. O canto são folhas que dançam em redemoinhos elevam-se atrás da grande pedra. A pedra e o poeta forma um olhar clarão: Onde está esse fogo que escondes?
Há tantos olhares para a linguagem da pedra, para o seu colo e assento, para a solidez subtil da sua prece. À tua volta tudo se move e dança. Alguém que dançou perto do solcaiu exausto. Uma semente é o bosque inteiro. Nasce da expressão de mil asas e cantos. Idades do ouro de que retornarão sem tempo de chegada ou de partida, os que partem na busca de alguma coisa que lhes falta. Na plena percepção de uma mais do que pleno sentimento do denso mistério do mundo, o eterno já ali da Alegria e também da Tristeza. Há que saborear o Silêncio ou coroá-lo do som que nos afoga em canto, a natureza de todos os seres i-nexistentes.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Um Quase Tudo Silêncio


Um


Pela Graça de ser
Caem, entre silêncios,
Três claros sons:
Sinos tangendo na manhã
O cimo de uma nota suspensa na distância.
Três espigas compõem o silêncio do vale
Entre o céu e a terra,
Nem uma palavra me rasga a sede!


Dois


O arco esticado
Divide a meio a paisagem
O olho está dentro do alvo
Entre o Silêncio e o quebrar do ovo
Uma seta caiu:
Súbito relâmpago!

Três



Vem uma rosa ao olhar
Um crisântemo à muda cor da Voz
Entre ambos, desvela-se o Silêncio
Voz cega !
Mudo olhar sem boca!

domingo, 15 de Novembro de 2009

Poesia de reclinação da hora antes do tempo


(Vou plantar Crisântemos. Germinam já as sombras das suas raízes aqui no chão da alma. Vou enfeitando, em solidão, a minha Saudade. Vou chorar o jardim!)



É hora do poema
A água canta!
Quem sabe em que canteiro
dormem, ocultos, os crisântemos?
Têm morrido em mim tantos:
Poemas e Poetas!
É hora de um novo
ovo e semente
É hora de deixar murchar as rosas!
e de trincar o dorso da serpente!
E abrir nos buracos da terra e da chuva
um mais espelhado azul!
Um mais alto jardim!
Entre paisagens que se entreolham
Em escuta do eco de Si e de mim
Saudade!
Dormem nas minhas mãos, pombas poisadas
No colo morno das manhãs cisternas!

(...)

Olho na cal branca do dia
O rosto dos murais
(Lírios saudosos de sangue índio
e das moradas eternas)
como os girassóis curvaram
o pescoço desde que a sombra
me floriu no peito
o signo sagrado e desfeito dos dias.

Flores de Silêncio



Tão sossegada a brisa da manhã!
Escutai bem o seu canto:
-É cotovia ou rouxinol?
Oiço cantar o melro
A folha treme
Na dúvida.
(Re) colho-me.
Não olhes para trás
Leva limpo o coração
para ao pé dos lírios!
Vai! a neve brilha.
Não vês? Já é de dia...
Embora não pareça!


Viste chegar a bailarina?
Ouvi o seu véu a deslizar na neve
Pelo ruído dos seus pés azuis
Vejo que vinha cansada.
Não tarda, nasce o sol
Um rio aguarda
nas nossas mãos a sede.

sábado, 14 de Novembro de 2009

Golpes de asa - Folhas e asas






sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

A-lux-i-nada-mente Saudade ou a outonal maneira de ser triste



Não sei. Deve ter sido no Outono, porque as folhas ferviam vermelho no ferrete do muro. Em brasa eram as horas em que descia e subia no corpo, na alma e no espírito, uma dança voraz, uma paz doce e dormente entrega, uma subida de mim à coroa, uma vontade vaga e lassa de ser triste. Coisas de mulher a quem o céu amanheceu tardio. Porque, assim, a vinha virgem ganhou aquela cor que ao branco do muro arranha, e à alma dorida faz vibrar em mais alto tom as cordas afinadas do violino breve. O poente atravessa a ponte e eu, que nem sequer existo, sou a ponte que entra no mar afunilando a distância, como uma serpente de madeira que em deserto e ondulado rio, entra invisível no azul. Não sei onde vai dar esse caminho, mas pode a vida perder-se nesse lugar: uma Veneza de alma, funâmbula, gótica. Moribunda, a lua bate no clarão do rosto em rima e som tão ardente como a clara Aurora a nascer do passado poente.
Passamos a ponte, para o outro lado do rio. Para o rio lavado de uma moldura de árvores respirando o verde; cobrindo de sons de flauta os trigais e os roseirais floridos. Há-de rebolar-se pela encosta a redonda palavra levantada em chamas. Hão-de pisá-la as folhas que caem persistentemente; vermelhas, em vento levadas. Para que ardam de uma treva eterna os ventos, os nevoeiros e as gotas lentas, redondas e grossas, que se ouvem longe. Lá onde dormem as rãs e os olhares se viram para a beleza nostálgica de um sombrio postal em prateado rio. Aqui chegado pelo mesmo caminho e corrente de pensamento.



Outras correntes são como os livros e a Vida. Levam águas que se misturam e rios que se bifurcam de amanhecente e anoitecente rima e som e tom. A Poesia é como a beleza, mas não é a Beleza. Cristo não teria olhos azuis e Deus não tem face. A beleza tem apenas, do rosto, a rota e a ilusão da face. Os padrões são marcos de pedra e colunas de nada. Não é a poesia medida de clara fonte, nem o é o murmúrio fundo e cavernoso, já que a Poesia, como a Beleza não têm padrão. Não podemos acorrentá-la a um padrão, pois que o não há para a extrema beleza de uma sombra no muro, onde há feixes de luz futuros e passados. Tudo a acontecer. Tudo a mostrar-se! E a poesia crepuscular é como a outonal beleza de uma baga dourada na sombra do muro; um céu abísmico de nuvens pretas e uma árvore nua de ramos duros e doridos na paisagem da tarde que se afunda em poente renascente e belo. Nascemos e morremos em nós, onde mora a poesia e nos visita Deus, ou a sombra dele, a sua assombração. A poesia é a linguagem do ser. Provavelmente tinha razão, Heidegger!
Não sei, devia de ter sido no Outono que esta vaga saudade se me nasceu alto som, e me morre, em silente dança: uma queda nascente de uma remanescente e antiquíssima Origem e fonte. Um levantado sonho, alumiando a morte, como Pascoaes prevê que seja a Vida que se esqueceu de regressar. Não sei. Não devo querer saber! Sei que a vide atou ao pescoço do limoeiro, aquela fita em fogo!

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Abertura do Jardim em Pura Alegria


As Três Graças - Pintura de Oleg Zhivetin




É vivendo que eu encontro o êxtase - a simples sensação de viver é pura alegria.

Emily Dickinson



A pura alegria é este céu que, doido, estendido em azul infinito, tocado pelas árvores altas, debaixo das quais a terra está a florir constantemente. Pura Alegria é a catedral dos olhos na Sé santa do subido olhar sobre a espessura criadora da Terra. Terra debaixo e no interior da qual, na irrupção do momento eterno, a pedra e o ouro nos falam em sílabas e sopros de sons e de música. Pura alegria é a alma de todas as coisas, é todas as coisas terem alma no corpo. Em nós, humanos, a pura Alegria é a participação em toda esta dança: a dança dos elementos na dança do nosso ritmo singular. Eu sou. Não para mim, não em mim, não para o outro, mas no outro. Eu sou tu. Esta é a alegria. Que velada, ou real, parece ausente na instante Presença, e é presença pura na Ausência; sombra ou luz, afinada corda, ou dissonante nota. Isso é pura alegria de achar, não de procurar. Pura alegria é um jardim ser, todo ele uma fala limpa, uma cegueira extrema.
Cantar uma canção é reconhecer o rosto desfeito da claridade, ou o escuro medo de um verbo: lâmina afiada na face fina da lua. No seu contorno nítido e brilhante. Espectro de mim, é esse avesso e direito do coração colado ao céu-da-boca. E isto é Saudade e Amor. Saudade da silente presença do que existe no deserto do coração. Amor por ser na vibração de cada átomo, em cada fibra do ser, o “milagre” da existência do mundo e a Saudade de o não haver; a quietude que não é a da montanha na paisagem, senão a interior paisagem na montanha da alma. Alma que não é a do jardim deserto, que não é só a do homem na gruta do seu coração; nem é apenas a divina centelha fora de nós, de dentro. Pura alegria é ser ébrio de tudo, na Natureza de nós. Saudade de entre a Natureza e o Homem não haver cisão, mas ligação profunda, às vezes velada, e em seus véus descoberta e despertada; pura alegria é achá-la sem a procurar, por encontrar no milagre do canto a voz de deus saudosa a murmurar. Pura alegria é aquilo que é, para lá do visível. Isso é a pura alegria! Prisma de todas as cores, no movimento que em branco néctar as mistura a todas e as faz desaparecer no olho vesica de um infinito olhar.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Jardins legen-dados


Secreto Jardim


Jardim - Canto do Canto

Diálogo no Jardim


Jardim espelhado

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Por aí sem razão



Ando por lugares desertos
Deserta!
Mas não é ainda
O Deserto do lugar.
O Lupanar, lupalugar!
Ando por aí parada
A perguntar


Sem querer saber
Vejo-me vir do mesmo
ou será outro mesmo
o mesmo nenhum lugar do ser?
Que outonos se me revolvem
na alma?
Que lagos?
Que magos encantamentos
Que plantas
doces plantas!
Doces lagos!


Ando por aí parada, a correr
a correr; a balançar,
a balançar
A minha vida é um poema
Que ofereço
A expirar...
Ando por aí a expirar(me)
mundos!


Que mundos se me morrem nos lábios?
Que doce e mel sabor
Que amor é tal Amor!?
Como um risco na neve
Dormi-me ao de leve

No claro sopro
no salto breve
da brisa do mar.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Oferta de Aniversário



Diz-se "Pedra preciosa"
É mais como uma Rosa
Um gigante dedo me anela
a galáctica nave
Viemos dela
Dessa arca, dessa gruta
Numa viagem sem regresso
Dessa espiral do Tempo.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Nascimento



Pintura de Leonor Fini

Enrolado sobre si mesmo, as mãos no rosto, o olhar no vazio, o ser é o Nada. O olhar branco como um tubarão. Tudo é cheio. Nada espera. Nada sabe. Pleno, seguro, protegido, sente a casca que é como se fosse e não fosse o mesmo, a tocar-lhe o corpo, ao mesmo tempo dentro e fora, indivisível, uno. A mónada. A totalidade. A Alegria que não sabe que o é. A visão cega de uma membrana de luz, uma visão desconfortável do que pode ser um corpo separado do que é uno. Um ovo. Um ovo, medida de si mesmo. Origem da Origem. O corpo termina e acaba no ovalado fruto, no macio casulo; no fechado recipiente. O ser é um recipiente cheio de si, vazio do mundo. O ser respira pela boca e pelo nariz e por todo o corpo e canta. O ser canta o não ser futuro que será. O pássaro que em si tem movimentos de voo, dorme. Nada mais existe. Nada existe. Nem o sono, nem o olhar. A água morna envolve todos os poros do corpo, por dentro e por fora a mesma temperatura, por fora não há. Silêncio. O líquido é meigo, porque é alimento, o ser é um peixe colorido. O peixe nada e o canto adivinha-se, imagina-se. Nada existe em tudo. O vir a ser é um milagre. Um número redondo. Infinito. O devir é um desejo de não ser, dee regresso à Origem, onde o milagre sem forma é uma forma de milagre. O pensamento do Ovo ri. A mãe vagueia com o rosto coberto. Deixou de ver. O ovo rompeu a casca e desapareceu no mundo. A mãe segura no colo uma pedra. desaparece no ar com o rosto coberto por um lenço branco. Corre à procura do Ovo. CegaO Ovo procura a Origem e a Mãe procura no Ovo o Mistério da Criação.

sábado, 7 de Novembro de 2009

"En(t)tre Valo"



Peço desculpa aos leitores. Não é porque me falte a asa ou o fervor do voo - sabeis bem que não. Não porque o jardim tenha deixado de semear(se) me de vida. A Alegria é talvez a mais alta Vitória que a humanidade ganhou aos deuses. Vou fazer um Intervalo ou vivê-lo, como disse o lúcido Poeta desta tão vil "Pátria", ainda que sonhada! Também para o sonho é preciso ter o olhar directo e doce: o olhar de quem é bom e simples como o quis Aquele para quem os nossos olhos se não voltam, pois do seu jardim seremos, para ele voltados, eternos jardineiros!

Para o caudal de palavras que me cresce por dentro e que, generosamente, os deuses vão colocando na minha boca, haverá sempre algum "continente" longínquo, para o contéudo próximo; Haverá sempre um outro não lugar em que se deitem, ou em que voem, ou simplesmente em que escorreguem... essas que em mim pedem para cair, lágrimas, de quem é triste e saudoso, o caudal de palavras, para o caudal de onde vieram...

Vou "suspender" pelo que for, o blogue, e repousar-me de mim, ou desta "máscara" que sempre me entreolhará com espanto e com gentil benevolência me sorrirá, como aos anjos dos meus dias, sempre que a tarde vem balançar-se na folha de um acidulado limoeiro; virá e vem, porque convocada, breve e suave, a brisa que, ao de leve, me fazia esvoaçar os cabelos de I. Me fazia chorar sobre o meu próprio corpo, e rir de encher a alma de tal ébria alegria de viver!


Sei quem fiel me lembrará e imaginará em outras árvores de outros jardins... voando borboletas azuis; lendo a luz, e aprendendo com ela o suave repouso de uma clarividência calma e sossegada: a alma zen... Outras horas serão de paixão e febre, em labaredas, a arder em humano gesto e carne e sangue da palavra, do Verbo que navegará connosco onde quer que as velas do navio encostem!... onde quer que seja tocada a vibrante nota de uma tão profunda escuridão que me apavora de gozo e de dor embargada embarcação da voz, a tremura da mão e do corpo... o humano sentir...
Ámen!

Haverá sempre um sopro de gaivota... um segredo que o dia conta à nuvem... que a nuvem conta ao vento... sempre a história que o não é a ser vida... a ser vida... coração, olhar... vibrar... estremecer, no milagre fervente da vida. Como se fora...
É só a vida a passar! É só a vida a passar! Ou "eu" a precisar de me afastar de "mim". Errâncias! Só o deserto dá lugar ao pleno respirar do saudoso Oceano.
Boas Viagens e boas "Poisagens" Vou com as "n-aves!"
Um beijo!

En-t-re Labirintos


Imagem: fonte Google

Com as sandálias e a espada de seu pai, Teseu caminhou todo o dia e toda a noite e todos os dias e todas as noites até chegar ao labirinto do tempo, onde se fecha e abre a porta sem porta de onde nunca se regressa. O labirinto é um nó que se desata só com os pés descalços. As sandálias de Teseu não tinham asas e a espada não cortava o medo. Uma espada é uma lâmina para abrir a fina flor da teia. A teia era uma estrela na árvore. O leitor leu que as velas pretas para a partida seriam o luto com que o branco manto de Ariadne haveria de cobrir-lhe o rosto.
Os espelhos no labirinto eram as águas dos lagos. E os pássaros eram mudos como suspenso tempo. Entre as árvores a brisa calada trazia para a luz o silêncio dos peixes a deslizar nas águas. O som da água entre o corpo escorregadio e rápido dos peixes era como brilhos coloridos na profunda altura da luz. Não havia nenhuma gruta onde esconder o diadema. Os versos estavam seguros por um fio que escorregou das mãos de Ariadne. As sandálias do deus correram a agarrá-lo. As mãos de Ariadne voltaram a segurar o fio de lã. O oiro brilhava como uma luz que lhe saia das mãos, como uma seda amarela. A seda cobria o caminho por onde o oiro do fio passava. Ariadne entrou no labirinto por um caminho que lhe tinham ensinado os flamingos. Os flamingos levantaram voo, enquanto o deus chorava dentro de uma rocha aberta no mar. Essa rocha falava e cantava como se fosse uma ilha em forma de sereia. Uma sereia como uma ilha. Teseu trocou as velas brancas pelas velas pretas e o navio foi tocado pela ira, mergulhou no mar com o som de muita água a bater no fundo Oceano que o salvou. O mesmo que o haveria de esperar depois. O castelo de lume é um imenso labirinto onde os pés vão descalços sem deixar qualquer vestígio ou sinal. O labirinto tem à entrada a cabeça de um touro. Dentro do labirinto há borboletas que voam em círculo, asfixiadas de luz.
A voz do Oráculo calou-se. Ariadne segurava o fio e a espada levantou o punho como que para abrir a tela do tempo. A tela do tempo era um desenho em espiral, como um imenso labirinto em forma de ilha, em forma de castelo onde Dionísio costumava plantar a vinha. Ao ver a beleza de Ariadne coroa o seu amor em ouro e pedras. Tornada rainha do eterno abandono sobe aos céus corada para sempre entre a Serpente e o poderoso Hércules.
Ariadne adormece entre as sedas pretas e brancas dos navios que se movem sobre a cabeça coroada do tempo que a visita em Saudade, como o dia se afunda na profunda noite e a noite emerge e arde no altar do dia.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Íntima Saudade

Um dia
Quando não houver
mais nada para riscar
no osso de tudo
Quero ver como vais olhar
O sol a pôr-se entre estátuas vazias?!

Um dia
quando o olhar morrer
quero ver quem levará
à flor dos lábios o sorriso do dia claro;
O beijo em concha
na água de beber dos olhos!?

Quem guardará nas mãos
As palavras não ditas?!
Em que lugar estarão cativas?
Onde irão parar as pérolas?
A que mar levará o vento a chuva de dentro?
A que cai hoje em nenhum lugar?!

Aonde irá parar a minha mágoa?
Como uma maré transbordante
para longe de mim me levará
Para onde o deserto é mais limpo
mais distante do que mais perto está!
Como lâmina em fio de névoa
Corta-me o Sol em Saudade as asas.

Um dia
quando não houver mais nada para lembrar
Haverás de cantar-me por cima do Silêncio
Como quem acha no deserto
a flor do limoeiro
E um grito verde na hortelã dos chás
Cantará por nós um canto com véus.

Uma dança de sombras
E o sonho de nelas desfazer-me
em mó de pranto e solidão!
E as pegadas no vento?
Quem as limpará no deserto onde moro?

Quem de mim me levou
e me não trouxe ao lugar onde os versos faziam sentido?
Quem tão cedo me levou em mão as rosas?

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Não sei se há...


Não sei se há um princípio para as coisas, ou se elas nos chegam em ecos, em memórias. Talvez as flores sempre tenham lá estado. Talvez os olhos acordem para vê-las, só de sonhá-las, quando o pensamento se encontra com a simultânea aparição do olhar que nos olha, mesmo que não estejamos lá e seja tão só o espectral olho branco da Saudade... Porque o Verão abraçou o Outono, desceu pelos raios quentes do Sol, o anjo do Real. Tinha asas nos pés e soltos os cabelos traziam a luz para ao pé das flores miúdas do jardim. Que Alegria!

Não sei se há um fim para as coisas que não tiveram um início. Sei que, no dia em que o sol bateu no botão vermelho da rosa, o coração gostou de existir e os olhos acordaram como pássaros doidos em redor da luz. Talvez aí tenham começado a nascer as folhas, as flores e os frutos.

Visto de cima, o jardim era como copas e copas de árvores, em góticas arcadas, em oiro e pó de borboletas esquecidas, queimadas no seu mesmo nascimento, em novas fulgurações de sol e de prata. Eram como bosques, as catedrais abertas; eram como terra a florir debaixo do chão.

O jardim levantou-se do solo, não se sabe se descia ou se subia; era como se os ramos e os troncos chorassem sobre a terra, em salgueiros de vento, frágeis borboletas...

Visto do poema, o jardim era uma flauta de vento, uma cana florida, um sopro, um eco.

Em baixo, dormiam as folhas, a terra, o húmus de mistério e de vento. E o jardim era um alfabeto de consoantes e vogais, como uma procissão de almas; sílabas a soletrar a luz e a bater nos muros e na flor das trepadeiras; no sorriso do hibisco e na palma de um árvore cuja origem é uma ilha longínqua a arder... uma árvore que nos ensina a cor com que se vestem as manhãs. Nascem ramos das mãos de quem ama a terra e a ela se abraça num abraço infinito e florido. Num abraço nascido da raiz. Se dá ou não fruto, é o que saberemos depois, quando o jardim se transformar de novo e uma vez, ainda, renascer do nosso olhar.

Não sei se há um princípio para as coisas... Se houver, escreve-se com palavras redondas, como frutos em gerundivo e lento despertar. Só sei que no jardim... só há o que há.


(Texto para ser visto, mais do que lido... e sentido, mais do que...)

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Danças com luas - Vozes do Jardim


Provavelmente foi num passado ainda não presente que o tempo abriu um pequeno golpe na terra do jardim. Ou melhor, o jardim nasceu, aí, desse golpe de Tempo, dessa fissura no espaço, como sangue derramado das rosas, antes ainda da manhã, antes do canto da Aurora.
Nasceu o jardim da dor, do sal e do deserto; nasceu de obscuras vozes a iluminada leitura; criou-se na oculta gruta em distante proximidade saudosa. A terra era seca e o líquido novo jorrava como sangue na terra. O Amor escreve-se no peito da paisagens, no deserto dos olhos, no prantear dos mares; na garganta verde dos rios. Pela praia da memória, a luz da face... a luz da viagem por acontecer. Há flores, montes e lagos onde se funda e afunda uma memória de luz no corpo da palavra. Uma palavra como um braço a segurar a lua; uma palavra a beber da profunda raiz das águas, uma palavra-boca a arder no deserto dos rios!


Relembro. A Saudade é o que foi para sempre na alma eterna das coisas que amanhecem depois. Lembro-me bem. Como pudera a luz da tua face incendiar-me a fronte? Ó mater dolorosa! Ó Madrinha do Mundo! Maria da Consolação dos que choram sobre os rios que passaram; consolação dos que não têm boca para a beleza do mundo! Nossa Senhora das mil e uma imagens! Nossa Senhora das Rosas! Coroai-me rainha nisso que sabeis ser do lírio e da rosa sinal.
Tu que desvias os olhos das mercurianas águas, Tu que ficas! Que ficas para sempre colada à respiração dos astros a coroar-me viúva do real; Senhora do Mundo em seu pranto infindo e infinito! Ó dolorosa palavra-ferro-em brasa no corpo do poeta em que jazida estavas ao luar... entre as vozes dos lobos e o som do vento que traz uma flauta para o pé da delirante boca das antigas profecias, na língua arenosa dos desertos, na língua de um deus menos claro.


Dentro da boca de Sibila, os rios sobem as pedras, ganham musgos os troncos do bosque e um tronco côncavo de madeira, como colo, a flutuar nas águas é uma canoa atravessada pelas vozes que se afastam, Senhora da Esperança!... E rezamos dentro das profecias pelo não regressado. A minha memória, Senhora, é como uma serpente de água que desliza no brilho das luzes que ladeiam e seguem as cores do bosque, lá para onde se põem as águas. Chamo. Vens na brisa dos ares, para ao pé das serenas horas, a pingar sol sobre as asas incendiadas de Ícaro, essa Saudade plena tecida no sonho de criar novas paisagens para chegar ao coração do homem saudoso da sua Origem ausente. Canto nessa essa ausente e chorada melodia de dentro, como pingos na gruta estalagmites da alme! Alguém terá deitado o gelo das corças para cima da palavra. Alguém terá pintado de verde os portões de bronze; a folha queimada e a coroa; o diadema delicado e gentil a boiar em mistério sobre as águas, perdidas águas em canto de violetas e tristezas! Fecham as rosas o grito.


Bendita sereis, Senhora da Saudade! a sempre eterna Mãe de tudo quanto é novo em seu antigo ovo, em sua luz fechada; em sua Luz de dentro. E a minha voz é um farol que ilumina em futuro o pensamento das palavras que hão se seguir e subir até ao cume do sem sentido do real. Há-de subir a minha voz e o gesto que a acompanha, há-de subir ao plátano para ser, de novo, em canto-chão, ave no olhar. Adormecida imagem a respirar paisagens nos olhos fechados que se acendem a oiro no jardim suspenso dos olhos. Na vesica piscis da sempre-eterna visão transparente das águas da Origem.


Na floresta havia carvalhos e catalpas, havia o choupo branco em seu tronco de prata, em sua folha verde e recortada; o círculo das folhas das olaias, o coração do plátano! Havia a flor do pinho. Aos pés do mar ardia a flor do linho!... E o meu país tem o perfume dos pinhais que emblaam a forma aérea do mar!... A suave brisa de um sorriso novo de memória atravessada por tempos que, dentro do tempo, pintam de azul os pés e deixam voar os pássaros, tentam voar com eles. Os pássaros são o soluço da folha, o chá de jasmim debaixo dos carvalhos e das acácias da ópera das rosas que não havia na terra, comparáveis às que lavravam no céu constelações de espelhos e de máscaras, coladas à verdade do iludido rosto das infinitas paisagens. Entre duas luas brancas e móveis na superfície vertiginosa e abismada dos céus, te canto, Senhora da Hora instante!

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

O Instante da Criação

Casa das Gaivotas - Desenho de Karin Koltzow

O "instante" aqui surge no movimento inseparável o "entre-dois do movimento e do repouso". Chega a espreitar a presença da luz, a forma do paradoxo do instante que não é nem princípio nem fim, antes gira no entre que presente nos acena do futuro e retorna no "Sempre" que é em nós a sombra e a luz, a vida e a morte dessa ausência presente e irrecusável do rosto que nos fita, dentro do rosto que a tudo anima de vida e nos estranha e entranha. Absolvição por deus da culpa do pecado Original da Criação.


A presença da figura que espreita na Realidade: asa das gaivotas, na mecânica roda do nosso espantoso grito: gritante silêncio com que clama absurdamente de si mesma; "coração inaudível de todas as coisas". A não coincidência disso que "em nós está com o que não está." essa ausência presentificada. O insituado lugar onde a Saudade eternamente se cria em se devorando, uma e outra vez em origem e primeiríssima vez. Criação labirintada onde labirinto e imagem são a busca onde nos estranhamos próximos da Criação. Morre-se nesse instante em que se revela o mesmo rosto: O mesmo Minotauro trespassado em nós. Reino dos entre-seres; reino dos entre-coisas; entre nós e a consciência de nós, transnascimento, quando o descobrimos "terra de nascimento", não "túmulo." 'Alguém que não é ninguém e somos nós.' de Vergílio Ferreira. Esse alguém que nos estranha a que não se acede nem à sede nem à sede desse real

O clarão: " A máxima "claridade" que ilumina a nossa 'existência'. É ele que torna a palavra poética o centro dessa luz impenetrável que é a cega e dupla entre-existência de instar no sempre aberto coração das rosas de luz e o movimento que errante nos desencontra à janela do "Sempre" que me há-de ser Origem, Nascimento e Morte no Eterno.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Catedral dos Olhos - Bizantino olhar


Dia e noite - Escher


São flores e aves ricamente vestidas
No corpo das arcadas
No mármore azul da Líbia do olhar:
Um olhar como um pássaro, sem deixar rasto
Move-se na brandura dos céus de Constantinopla.


Há um grito engolido pelo vento
Vem do mar como se de gaivota fosse
o grito: uma memória de ébano nos cabelos
E Dimena é uma flor branca no mosaico dos dias
Para que haja som no silêncio dos passos.


Um sino recolhe as asas para o outono longe
pentear as almas como quem se veste
De linho e de perfumes da remota Istambul
da alma. Da renda do mármore no oiro da verdade
E a verdade das vides que se estendem nos muros


As romãs abertas da Saudade e tu, pomba de mim,
roças as asas na brancura das águas
Na imagem da pintura de uma catedral
De mar aberto: coração de vento e brisa e conchas
Saudade do coração do trigo, do pão do espírito


Vento chamado, ausência soprada no silêncio:
Kirie Eleison! - ouve-se dizer. E nada no humano peito
grita mais que o olhar verde das esferas do céu
O plasmado mar na grega ave que nos véus
esconde o olhar mudo: a eterna Saudade do Mar


O claro escuro do dia e da noite!
A eterna chama entre os espaços adentro
da entre-aberta porta, do entreaberto plano
A sístole e a diástole deste ser e não ser
O negro véu da noite e a espuma branca

A subir e a descer o peito das arcadas!

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

À Deriva - Entre Tempos


1. A leitora colou a boca à branda respiração das horas, ainda perdida do seu rosto.
Da página ouve a voz do jardineiro a cantar na baínha da tarde, a remendar umas rosas. O jardineiro coloca vasos em círculo e canta, fala com as flores, gesticula e ri estrondosamente. Esqueceu a linguagem dos sopros que a leitora lhe ensinou. Soprar era criar a forma de uma realidade sem espessura e sem peso para curar as palavras e as pétalas das rosas. Desfeitas em ópera as cotovias trocavam os tempos. A leitora sabe que a casa das palavras é ali, no cimo das escadas. Escuto. O caminho é o da casa da infância. Reconheço os cheiros: ervas, figos e maçãs acabadas de colher. A leitora cala e ouve em silêncio a voz da Mãe. A Mãe empurra as nuvens para o canto da paisagem. A Mãe gosta de arrumar o ar da janela, Afasta as nuvens para a brisa suave soprar na face das palavras na janela da Casa da linguagem. Chamava de dentro do som uma voz que dizia ser a casa abandonada dos sonhos. O Jardim ouve: Deus não se vê, mas escuta-se. E a leitora lê com os olhos de quem mora na distância os sons que dançam na página.

2. Uma estrela talvez seja apenas fulguração.
Acende a barca do céu em esvoaçar de asas azuis, na transparência do cristal. Uma tempestade nas folhas; um incêndio em Alexandria! Somos tempo e letras a arder demasiado depressa. Somos tempo e instante. A leitora falava de dento da boca da Mãe. Retirava o escuro das nuvens, mas dizia que as estrelas eram brasas de olhos e almas que caíam em certos dias mais frios. Nesses dias, as estrelas moravam rente às janelas e acordavam no sonho. É quando a tarde cai que se ouve Deus, quando nascemos. A s letras explodem para o ar de um salto, como um relâmpago! carregadas de luz e de terra, a rasgar o céu. Acordam do despertar! Com uma hera a nascer-lhe do tronco, a árvore é um conto, uma página luminosa.

3. O Poeta adentra na noite por um caminho solitário.
Um perfume de tílias ssobe de onde dormem as sombras. Há um requiem para a minha alma guardado numa folha, dentro da casca da árvore. Alguém chama os nomes de dentro das coisas. As coisas crescem dentro dos seus nomes para serem esquecidas. As coisas nascem para voar, como as palavras. O Real sagra-se na aparição. Mora na casa abandonada das folhas a planta da dor. A leitora canta para a solidão: “Quando (eu) tinha verdes anos.... mas a sua (nossa) noite é sacrossanta e serena.”

4. A leitora pertence ao bosque, às vozes dos pássaros nervosos e nocturnos.

Ouve-se Holderlin a abrir caminhos e a desenhar sons e sinos de campanário e cal branca, até ao abismo das paisagens entreabertas à lua e ao cansaço. Pertencem ao bosque os fios de luz, a origem e o abismo: Para voltar à origem de onde vim. É um passo apressado no jardim, um rio atravessado por uma dor curva-o (ao amor) mais para a frente ainda.
A leitora para ver regressa ao poema subindo a escada que dá para o sol. Uma laranja redonda brilha na imagem. Por detrás das folhas das árvores, das folhas que caem,o vento traz palavras e folhas sem direcção. São palavras nascidas sem gravidade, levitadas somo o salto da bailarina do conto acabado de contar.



5. Uma mesa de vidro é vertigem. Um lago de vidro, um labirinto.
Os dedos são troncos e a madeira tem nódulos por onde as palavras sobem e descansam, formigas, na rugosidade dos grãos de terra e das pedras do jardim. A aurora vence a sombra, trespassa-a e quer fugir. Parece haver fogo na floresta. Sopram flautas e o coro de vozes abre um clarão intenso na luz que a Aurora traz em cada mão. Em cada poro, um jardim arde na fundura da neve. Arde na luz. E um anjo do Real tropeça na espiritual terra de um jardim inominado.

6. A estrela encarnada de Rilke, a rosa de sua luz floriu na noite.
A essa luz, a leitora desfazia a trança em gesto de outonal brilho. A leitora percorre as imagens com pés brancos, semeia a linguagem olhando os pássaros, caçando vento. A leitora segue o rasto de uma asa e desaparece engolida pela sombra da casa branca.
Não chove em Istambul desde que a leitura se calou.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Senhora da Saudade



Senhora da Saudade, eu rezo!
Acorda em mim a Aurora
A mais que dormente e fina
flor do eterno dia
Fulgor de Ser
Esquecido
em seu Jardim.
Ecos de serenas vozes
De sossego e de respiro de vento

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Canção de embalar

(Dedicada ao Ulisses)

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domingo, 25 de Outubro de 2009

Clepsidra - A Hora

(Instrumento de medição
Outubro meado, será meia-noite no pé; e no fim do mês será a dita meia-noite uma hora acima do pé. )

Aqui no jardim bordado em pé de flor, uma floresta brilha no bastidor do tempo. Em fila, como em procissão de ecos, as árvores afastam-se dos passos. Seguem véus que varrem as folhas. Debaixo das palavras que os mudos lábios unem, o silêncio revela-se. Choramos no bosque o labirintado chão das folhas que caem na alma sem ruído nenhum. Sobem as mágoas o rio a vau. Um tapete de folhas vai subindo até ao pescoço do lago. Entrar nesse chão é fundar o lamento. Entrar na água é achar uma flor para o desassossego das harpas. Há horas que são mercúrio em esferas deitados no leito frio das águas. Bordamos no lenço a filigrana dos nossos nomes. Branco no branco, a lua é um clarão de água na face da lágrima nublada das paisagens. Os olhos são um jardim nocturno deitado no crepúsculo do lago, onde o silêncio mais se adensa no bosque soprado pelo som dos cavalos do cavaleiro cego. A voz é como pulseiras vivas na prata dos espelhos em rosto da dama. Senhora da Saudade. Ó mais que dolorosa mãe. Ó minha tão terna Amiga, como é dolorosa a solidão dentro do bosque. Tudo dorme para os lados do ribeiro, só eu velo, pedindo à noite extremosa o beijo que espera a princesa de si. Na fronte adormecida, as arvores bordam sombras e astros, no vestido dos céus. Acordamos de não haver dormido. Uma pérola na boca nos transparece rendas de uma maré mais do que perfeita. Choro.

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sábado, 24 de Outubro de 2009

Digam que morri

Imagem retirada do Google

Vou dizer-te um segredo. Encosta o ouvido à terra. Está para nascer o dia. E o dia será uma involuntária raiz a atravessar o rio. Quem vai no rio é uma barca sem lua. Uma mancha escura. Quem ouviu o segredo sentou-se numa gruta, frente ao mar de sempre, e procurou a infância na irregularidade da areia. Havia uma criança na praia. O azul dos seus pés fazia crer que a água nascia debaixo deles. Ou era a areia que, pintada dos pés azuis, se mostrava molhada, e em lágrimas, e chamava a vida para viver em outro tempo.
A criança abriu a boca e um zumbido de abelhas subiu pelo muro encostado ao aberto corredor da noite, à sua alma dissolvida no ar. Sopradas nos montes em flautas que cantam para além do som e do tocador, eternamente, as notas vibravam de presenças ausentes. Alguém chorava em uma realidade a relativa distância entre continentes, a terrível dor de ser, da morte, o hortelão de espectros, o guardador de almas. A face compassiva da fome; a ausência de deus feito presente na água onde são baptizados os filhos e ganham o nome segredado pelo vento nos cabelos. As borboletas espalharam-se e entraram na chama para arder em mitos. Alguém se separou da sua sombra e seguiu por um caminho autónomo a contar estrelas. Só para olhar para elas.
Agora, o homem do chapéu azul é um Caeiro sem Nome, e o Real é essa coisa sagrada que se ouve do som do mar a querer alcançar o perdão. O castigo dos deuses, e o ser Oceano, ou bebedor de palavras no fumo do cachimbo da consciência dos rios. O castigo dos deuses é amarem-nos. Mas o eterno e repetidoo som das ondas, a expirar ritmos de silêncio para dentro do copo de água dos lábios, não sabia se tudo era bem de provar. O Homem disse: Vou encostar o ouvido direito à terra. O corpo do Homem, os corpos dos outros mortos são o relevo dos seus montes, onde os deuses antigos, os deuses puros e claros da Grécia, se passeiaram de mãos dadas com as deusas, em jardins com estátuas que já morreram há muito, renascidos em Saudade. Estátuas e árvores nítidas, como rebanhos para o pensamento estático e extático do Real.
A casa na paisagem é uma imagem de apascentada imobilidade, enquanto a chuva cai de manso, em outonos pasmados. Tenho sobre os ombros um quente cobertor e a ilusão e miragem dos dedos que se esticam e contornam, acompanhando a paisagem que abarca o tudo que rodeia a ideia de Terra livre, vasta, sem princípio e sem fim. Ou de como o olhar se suspende a si mesmo, na busca do princípio saudoso, como se o fim já tivesse sido devorado, para grande espanto da boca, do mistério e do segredo. O que é murmura distâncias e gélidas montanhas são cascatas de gelo derretido. O que é sobe em ar rarefeito para o céu da boca, onde as palavras dormem debaixo do palato húmido da língua em céu e calam as falas do deserto: cascatas, febres, viagens. O que é murmura da distância das galáxias a familiaridade de um mesmo e irredutível não lugar. Um ponto vibrante, como se fossem asas de metal, no palato do céu estendido, horizontal e esférico da contemplação do real. Podem dizer que morri.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Mecânica do Mundo - O Insustentável Peso da Matéria

Rafal Olbinski

Desloca-se sobre o verde da terra. O mundo é uma mecânica rotação trasladada. Gira, lenta e vagarosa sobre si mesma, a geodésica de sal e ar. As nuvens coladas ao algodão da paisagem sobem em espiral para fora de dentro do espaço entre torres e arcos arredondados. As torres são a geometria de uma levitação. A fundura espiralada de uma maçã de Magritte, lembrada na proporção clara de um azul-mais-que-perfeito. A profundidade sobe ao cimo. A vertical surrealidade da árvore é um píncaro, uma agulha que sombreia a horizontal e deitada mancha no solo. Florirá o caduceu, a vara de Moisés, até a flor de Alexandria sobre os montes onde dorme a geografia do corpo dos homens. A montanha por onde o sol penetra até à lisura de uma polida pedra. A fragilidade do cristal e a gota do orvalho que reflecte a lua e as águas pantanosas da chuva.
Olharás o Norte com os pés serpentinados no horizonte de pedra que sombreia a montanha azul; olharás por dentro do olho em fogo do Egipto a oblíqua deliquescência das rosas e da flor da claridade. A montanha azul é atravessada por gritos. Atravessa-se o grito por um buraco na curvatura da terra. Caímos de nós próprios. As raízes são pés de tamarineira e flor de olhos. As estátuas engolem o abismo, já os limoeiros e a hortelã refrescam os botões das rosas germinadas do sol, entre círcudos concêntricos e excêntricos. Atravessa-se a montanha para se chegar ao lugar do regresso. Estará fixo ao colar da deusa um diadema de lata. O mercuriano metal dos espelhos e dos lagos. Partirás do lugar de todos os lugares equidistante do mundo; de dentro e de fora dele; e nascerás aos olhos de deus como uma luz que gira; um olho cego do sol, lugar onde a raiz é folha e o espelho do olhar se demora ternamente na semente que vai entrando na terra como dela saem as asas entre duas montanhas a eterna espiral cai na inércia dos dias pisados. Como se houvesse tempo e tudo não tivesse acabdo tão jovem em tudo o que germina. Gira sobre a roda dos dias a ausência do Real finistindo-se em canto.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

O Jardim das Hespérides

Imagem: Pintura de Jacek Yerka


Segue-se para a casa de Morpheu, para o seu abraço, por um caminho do bosque. Como se fossem folhas do bosque, confiantes na corrente, segue adormecida na barca da lua, a estrela da Aurora. A barca do ciclo das luas: das duas luas do não lugar de Dimena, o espírito morno e a alma lavada desse não lugar. Desaparecia durante o sono adormecido em esquife de cristal. Banha-se nela a boca de Dédalo. Entrado no labirinto, as asas cobriram o mar Egeu.
O silêncio do mar tem os pés frios. O silêncio estende-se nas águas como as tranças do esquecimento no rio Letes. Uma barca era uma lua reflectida nas Horas. As horas são da macieira os frutos, os tenros pomos. São sopros e cantos as flores do esquecimento. Despontam dos dedos de Ariadne no sonho do esquecimento. Dentro do sonho alguém lê um manuscrito. Nele está guardada a música de palavras incompreensíveis e belas, terríveis na sua luz cega, desaparecidas na água do interior, as águas que jorram do tempo e da caixa de música oculta na cabeceira, ao lado do livro que nos lê. Um livro chama para a nenhuma hora do sono. Ouve tocar uma área de um famoso músico de que esqueceu o nome. A carne e a cor da imagem dos desenhos daquela a quem lhe nascem borboletas nos dedos. De quem nasce jardim. As Horas são as poderosas raízes levantadas da terra, são as lentas barcas do esquecimento a afastarem-se. As papoilas são as flores de dormir que o cão branco mastigou. Ao lado do cão azul, reparo agora que é azul, há silêncios que navegam pela água celeste.
Guardam o Jardim fidelíssimas e silentes vozes. Mansas, as horas, como quem desdobra a folha do lençol de seda da luz que a lua veste, as letras do tetragrama desvelam-se e descobrem-se em brancas roseiras e adornados pássaros. Os perfumes desprendem-se do branco e prata os lençóis da Hora. Os perfumes são a rosa vermelha à flor da pele. Dormimos confiantes debaixo da flor nívea da lua, a branca flor da lua. Cantavam em coro viradas para a nascente, enquanto o leito se fazia alvo sobre as águas sossegadas. Fresca era a sua sede. As águas eram espelhos claros. Eram três, em graça, as graças; eram rios da escrita. Nas casas da escrita havia espelhos e as horas devolvem o rosto de narciso ao bosque eterno dos lobos. Era a vaga flor a abrir no rio uma Saudade. Na cabeça baixa do cão mora uma fome. O cão, debaixo do cristal fino da lua, delicado baloiço de inquebrantável tempo e silêncio de olhar. Olha para o fundo das águas. O cão é o fiel guardador. O palco onde dançam as deusas é uma caixa de cristal, uma rosa pingando em cálice de oiro. As horas radiantes, esplendorosas e Crepusculares acordam nos olhos o sonho de um espelho plurívoco e fatal, como as nascentes de ambrósia que jorram da fonte dos olhos, onde as Ninfas do Poente despertam no oriente da terra.

domingo, 18 de Outubro de 2009

O Tom e o som de Isabelina escrita - O Labirinto e os Cisnes

Imagem - Pintura de Jacek Yerka

Uma página branca é o silêncio liso da água, na folha do jardim. Uma letra suspensa no sonho, saída da morte, é um canto novo, uma palavra branca que se move devagar. Uma palavra branca é um som de escuta do silêncio. Move-se com solenidade no lago e no livro. Uma folha que vira com o vento é uma imagem onírica da leitora. A leitora vê no jardim um caminho solitário e silencioso. O silêncio chega solene, mora na Casa da linguagem, em Parasceve. Uma palavra apanhada da árvore é um fruto que mora no sonho e na infância. A página do sonho vira-se com o vento das palavras que sopram silêncios. Nasce uma nova folha. Escuta-se o silêncio que é o rosto acordado de Deus. A Mãe espreita o baloiço da lua a respirar. A lua crescente dentro dela e Deus mora dentro e fora do jardim. Ouve-se o silêncio dele no caminho que as gaivotas fazem, e nas marcas que deixam na areia. As gaivotas deixam na areia sons espaçados de silêncio. Desenhos para lá e para cá do jardim impermanente. Não tem tom nem som o Jardim de Saudades. A Mãe dorme como a nuvem em cima da árvore. O baloiço da lua movimenta-se na escuta. Uma harpa no vento caligrafa a solidão.
Os cisnes labirintam-se no espelho da água. Não há vento nem movimento. Não há som nem tom. As penas brancas flutuam como neve no interior do labirinto verde. No interior da alma dos jardins. Aguardam o silêncio da noite. Preparam-se para o sonho e para avistar a morte. Há morte bastante no sonho. A cantora fecha o piano e deita-se no espelho da água do lago, a ouvir o sono tocar. O sono é um sino que deixa de se ouvir, quando chega a luz da aurora. O silêncio fecha a noite dentro de uma caixa de música. Lentas, as palavras mergulham no sono. Uma palavra sobe em estrela e aprece noite no azul escurecido. Uma só palavra para velar as que não se perdem nem caem na água: as que se equilibram no abismo. No regresso das gaivotas, os cisnes escutam os sons que moram na montanha. A montanha tem a forma de uma onda. O silêncio espraia palavras na pena das palavras, no pingo das síabas na janela da página. O silêncio é um ovo de luz na areia. Um nascimento interior.
A Mãe veste as folhas das árvores para despi-las, depois, com solenidade. Depois da aurora, os cisnes iluminam-se; ardem sílabas na neve rosa. Os cisnes são, no sonho acordado, flamingos que chegam do passado, trazidos pelo som da Mãe. Recitam orações para as paisagens desertas do azul do rio. Há pássaros que soltam sons e desenhos no ar branco das nuvens. Ascendem-se as asas de Ícaro. Dédalo avista a ilha em branco da página que se solta do bosque revisitado. Um bosque é um templo e um leito para sonhar a infância. O labirinto estático silencia os cisnes e as gaivotas. A leitora sabe que as vozes imitam as partituras brancas dos sons amortecidos pelas nuvens e pelas penas dos cisnes. Os sons espalham-se pelas sementes que os pássaros trazem no bico da véspera. Os sonhos são símbolos a balbuciar desenhos no ouvido. As palavras são cisnes, levam a morte a cantar e trazem o sonho para o jardim. O Amor vê o que as palavras ainda não trouxeram da página da árvore. As rosas são letras desmaiadas na espelhada água entre o verde do labirinto e o branco das árvores. As árvores são nervuras finas, veios de folhas escritas com tinta azul. O peito dos cisnes é um leito de Ofélia, coberto pelas flores e folhas caídas do jardim. Os flamingos oram, levantam um pé enquanto sonham silêncios no desenho transparente da página. Da página avista-se o lugar de Parasceve. A casa abandonada da infância vai nos sonho de encontro à morte e ao ruído que fazem as palavras a adormecer sobre a folha da árvore. A folha do jardim colada, como no sonho. A leitura onírica de uma morte sonhada. Os cisnes seguram a morte ao indizível sem lugar e sem tempo que se ouve no jardim. Sopros de abandono e de beleza extrema saem dos lábios de I. Corre no meu olhar um rio de vidro e de cristal. Essa lágrima reflecte o labirinto e os cisnes, deslizando nas páginas e na voz ouvida no silêncio: a voz da leitora iluminada de letras desenhadas onde dormem poemas e as gaivotas segredam.

Para a Isabel a minha gratidão pelo tom e o som da sua escrita: leve, inspirada e, sobretudo, crente na leitura silenciosa de uma alma que se mantém suspensa na altura do seu voo. E o seu voo é um sorriso indireccionado: uma oração imóvel, espelho da infância na impermanência de tudo.

sábado, 17 de Outubro de 2009

Canção de Outono



Oiço
A voz do Silêncio sem dono e sem nome
A calar-me os versos e os dias.
Vem do não lugar da terra, o nenhum som!
Ouve o respirar trémulo dos lábios,
o nenhum grito: poema e poeta.

Em nó de nós, a voz em escuta
cobre o outono com suas amplas asas;
reza o último ramo das violetas roxas,
O raio que aquece o ar e a vinha escondidos
no largo colo da sagrada semente.

É uma terra fecunda e escura,
Um charco de lágrimas,
lama e buganvílias rubras:
um chorar, em sangue,
rente ao muro branco
do jardim da Saudade, do sal e da cal.

Um silêncio carregado de futuros
no bico inquieto dos pássaros
Uma raíz plantada no invisível
da alma de ontem e de sempre,
agita-se e treme em sílabas de ventos
assobiando serras e distâncias.

Maior do que a boca
é a palavra que me fecha
Numa terra sem fronteiras
Num universo grave
onde desponta a flor do céu
na memória da flor do lilaseiro.

Reflexo do reflexo
Vertigem desprendida da Voz
Mudo larvar dos rios
no lavrar das chamas
Do tempo que cobre de vagas sobre vagas,
o destino dos rios e dos homens.

Na boca dormem os frutos da terra,
Cantam em Silêncio as bocas verdes dos ramos:
A sagrada vertigem dos frutos!
Descem da árvore,
carregadas de oiro dos profundos céus,
as silentes palavras que nos desenham:
sulcos, grãos e chuva nova.
na face germinada dos astros.
Oiço.

sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Vasos e Jarras de Outono no Jardim



Há-de chegar Novembro com as suas paredes frias; a sua líquida face a gotejar nas janelas da alma. Sentirei saudades nem sei bem do quê, porque, no Outono, as Saudades são mais fundas e escrevem no lago folhas, flores e poemas que a água desce pelo rosto abaixo, como uma nova cascata, ou um poço vazio, onde cai uma pedra pesada com um ruído a sair dos olhos furados e surdos do vazio da imagem; e escavam na terra os sulcos de uma pátria estranha. Uma tristeza sem sentido atravessará os caminhos mais distantes e retornará por uma estrada da alegria dorida, de onde me atirei com afogada razão de sentir; em sentimentos contraditórios e inexplicáeis desertos na alma das paisagens desoladas dos jardins.
Não decorarei os nomes das árvores que floriram na véspera; não provarei os frutos de nenhuma árvore e não ouvirei cantar os pássaros de nenhuma vinha. Talvez eu tenha morrido nesse dia em que nascida me tornei em pranto, uma fonte vertida da ampulheta do tempo. Talvez uma palavra redonda me nasça dos dentes como um fruto extemporâneo e inútil. Talvez já não saiba o que fazer deste entornar morno do tempo, na vazia fundura do frio das águas do poço, por onde me escorrem musgos pela face das tardes paradas, a fixar janelas que não há, para as imagens que nunca existiram senão na imaginação dos poetas e dos balbuciadores do formidável silêncio de tudo. Do desafiante enigma das horas perdidas em patéticas sementeiras de rosas e de lágrimas. Não haverá medida para a subida das águas! Os peixes inundarão os aquários do céu e, no deserto que é cada um de nós, crescerá um deserto maior entre o passado e o futuro. Não saberei beber o tempo, na solidão das horas que são minhas, no espanto de tudo o que acontece dentro da terra, antes de nascer. Na intimidade de uma voz telúrica que me chora em ovaladas mãos. Há-de chegar Novembro sem fazer barulho e uma flor sem pétalas será o que resta da voz do jardim, uma flor estranha de sal e areia; um mar venenoso me entrará nas veias e morrer de Saudade será, enfim, uma possível viagem pela escuras veias do céu. e nada do que foi me oferecerá continuidade. Tudo a morrer simultanea e ferozmente dentro de tudo; tudo caminhos entre pedras e subidas a florir da morte detudo! Nada a subir à flor dos olhos, pois que o frio secará a areia e ser deserto não significará nada para a engolida memória dos homens. Há-de chegar o dia em que não reconhecerei os canteiros nem os vasos, senão pelo odor que a memória faz subir. Nesse outono, não saberei a cor dos rios silentes que formam nódulos no peito das paisagens e só os vasos e as jarras terão do sabor do húmus e da terra, o longínquo perfume de uma rosa híbrida e distante: uma flor sem sombra e sem pétalas a desenhar rios secos nos olhos.
Quem penteará os meus cabelos na alma das fontes do jardim?

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Janelas


As açucenas


Imagem retirada do Google
Entre açucenas
Abraço as minhas penas.
São asas de silêncio,
São asas de branco véu
Braços de abraços
Pétalas são voos, imóves dedos
na palidez dos muros e da pele.
Entre açucenas dorme
A clara voz do corpo
Sombra e raiz, desenho e véu.
Entre açucenas cresce
o Amor transparência
Da terra que dormente abraça o céu.

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Onde moram? Onde moram?


Eu já fui tudo o que pensei
Já amei tudo o que fui
Até já afundei tudo isso no lago
e o lago não transbordou
de mim, nem dele.

Para onde foi, então, tudo isso?
A que Mar foi ter o pensamento
do tempo que ali havia...
Onde moram, agora,
Os meus sonhos pensados?

É disso que tenho Saudades!
Ao que não fui e ao que serei
Estendi os olhos, futuros e passados
Onde estão? Onde estão?
Os meus rios parados?!

O que fui que me lembra
em qual astro o achei?
Em que céu brilham ainda
os reflexos dos lagos
Onde moram? onde moram?
Os que fui e não sei.

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

As mãos



Deixa cair no colo, em repouso,
as tuas mãos cativas!
Côncavas ou convexas,
Elas são o avesso e o direito
de uma mesma Saudade.


Às vezes, até parece que cantam
como pássaros implumes!
São como nuvens,
São como pássaros!
Juntas, não se prendem,
Segredam!


Ouvem em oração
o Silêncio do canto
em que voam, aturdidas!...
Separadas asas do vazio coração
da Hora plena!


Às vezes tardam, as mãos...
Às vezes são, no ar,
O traço luminoso do desejo e da espera.
Outras, dançam,
Em infinitos espaços
A eterna dança das horas:
Suspenso voo do salto cego!


E são os dedos que se agitam
e tremem na maçã do dia,
o redondo fruto de colhê-lo:
Liso e novo:
coração implume de pássaro ardente.


São como plumas, os dedos,
cativos das paisagens dos olhos.
São como rosas as pétalas dos dedos
Cativos e saudosos da
ausência dos teus!

sábado, 10 de Outubro de 2009

Febre e Magnólia


Poderia encontrar as palavras, olhando para o solo, caminhando entre canteiros de roseiras, ouvindo o som dos pássaros que ficaram até que o sol se escondeu atrás do Plátano. Olhando o alto céu, sem pensar em nada, prestaria mais atenção ao botão vermelho encostado ao muro branco; sentindo o cheiro da magnólia; o perfume intenso das gardénias. Como se fosse Janeiro ou um milagre repetido abrisse em flor a alma que se afasta levando dentro de si, em arca fechada, o desejo e a ânsia. Até que tudo se encheu desse oiro silencioso de que as palavras são tecidas: o silêncio da escuta e o silêncio do que se fita. Nesse sudário, o Poeta lê uma sua palavra escrita a tinta indelével sobre o espelho da sua face. Essa palavra levita sobre a superfície da folha, sobre a lâmina de uma inconsciência cega. Um estilete desenhado no relevo da máscara de Cavaleiro do Fim dos Tempos. Esse “rei pobre de um país pobre” que se abre como um sonho, um rasgão no Real, por onde o anjo de Rilke, já cansado, derrama a estrela de ouro no templo aberto em sangue do meu coração.

DELIRAM DE FEBRE AS ASAS

Há pássaros que ainda se deitam nas folhas que adormecem o leito de Saudades. Um rio é um jardim de ofélias a navegar nas veias brancas de uma sede trasparente e brilhante. Cada bilho que semove é uma flor de luz a flutuar na tarde. Alguém baloiça com a lua entre os olhos, um suave movimento de repouso. Dentro das coisas há um entedimento pacífico que me adormece a febre, entre as árvores do bosqe que não acaba de afunilar o oiro da copa das árvores. Hoje, ao fim da noite, encontraremos um lago e só nele o nosso rosto se vê, em flor de tanta treva acesa, em archotes subindo as escadas onde Saudades espera, de olhar parado no branco da lua no retrato, a vinda do eterno.


sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Memória




"A fita desfiada e amarela que trazes ao pescoço equilibrada nos teus dedos de
marfim, a gruta onde nos fixámos sobre o brilhante rubro; o jogo de sínteses ainda em
esboço primário na curva imensa, o rosto sem olhos atravessado por uma seta do guerreiro
do lago, do corsário oceânico, do legendário argonauta.
Persisto, idêntico e semelhante a uma multidão de garotos sem memória, na estrada
de parafusos que contornas medindo a compasso a distância quilométrica que percorres,
imagina! Imagino-te a dez quilómetros certos sem um gesto."
(Isso Ontem Único, António Matia Lisboa)

Imagino-te de pé, debaixo de um céu carregado de rosas, equilibrado nos ramos da árvore entre o dizer da Alegria e a distante nota de uma torre de marfim e um pingo da insónia na cera a arder dos teus cabelos de astro. Um jardim onde as torres têm abertas para o céu as oito mil direcções do tempo e do vento. Atravessada pela luz, a tua face é um pássaro de fogo a cantar oiro sobre as pedras. Os ramos desenham no corpo uma Saudade adormecida nas folhas que choram a árvore onde se sentavam a colher memórias, as Amigas saudosas do jardim. A Saudade tem, poisado sobre o dedo mínimo, um pássaro; e ao pescoço uma borboleta de cristal a rodear as torres do castelo, ao entardecer das paisagens sem palavras para pendurar nos ramos das árvores, a simples e semelhante multidão de cavalos que se atropelam no jardim acordado. Para sempre a tua imagem voando sobre um chão repleto de reflexos de rosas, brilhos de Saudades nas fontes da seda das horas. Bebo-te a imagem e amo o reflexo que me devolve saudosa e velada. A face para sempre nua de uma lua que se esconde no pano escuro e brilhante dos céus.

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Já passou!

Chuva

A cinza da manhã inclinou a cabeça para trás, a todo o círculo do céu, para ver a água a querer abrir buracos, no campo semeado dos céus. Os campos secos do Verão ficam para trás, na paisagem passada. As árvores, verde cinza, trazem oliveiras para os campos que atravessamos à mingua de luz. Cai da esfera do céu uma torrente de água: por todos os vazios saem as gotas de chuva que se apressam em atravessar o ar e em chegar depressa ao chão. Chove em toda a terra! Uma chuva, de início espantada, saindo das janelas hesitantes; depois cai com saudades, chorosa, chamada pelo tempo que chegou primeiro ao pensamento da manhã. O comboio, bocejante, é agora um animal galgando as veias metálicas da paisagem que foge no escuro do céu. O comboio prossegue e afunda no lago uma funda tristeza que jorra de todas as partes. Entra no lago a paisagem pesada das nuvens escuras, carregadas de vontade e de volume de águas. A alma escorre, em dia de viagem, para a terra de nenhuma pátria, lembra uma líquida recordação indefinida, um desconforto qualquer; uma mão magra e branca acena na circunvalação aberta dos olhos; na despedida dos dias e dos ventos quentes a soprar no coração assustado das pedras. O mar recuou na paisagem, o Alentejo é, agora, o amarelo do trigo a escurecer na mão do silêncio que viaja`à procura de nenhuma sombra na sombra densa do céu pardo. Os sobreiros ardem astros na carne viva, ocre e sangue, da sua nova pele ainda em carne viva! Nenhum canto me acende tanto a saudade como a tua saída por entre as árvores de uma paisagem de silêncios. Dir-se-ia um bosque, uma frondosa hera a tapar o portão e as paredes a escorrer musgo do jardim em abandono. O pensamento atravessa o lago como um gigante, as montanhas que me despem encharcadas blusas. Comboio parado a florir melancolias na terra escura e fértil do Outono. Na direcção oposta ao correr dos rios, esperam-me as paisagens nascentes. A alma deserta escorre afogada em Saudades. Uma chuva é a chuva em que lembrei o mar, como um som ou um sino a bater na pedra da distância. A bater na janela...

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Para onde voaram as borboletas... e o que ardeu com elas!?...

Por entre os rios secos dos dedos nascem as flores da chuva, pingam na boca negra da noite por um poço de tristezas. Caem as gotas grossas pela água das tardes. Deus não chove deste lado do céu. As mulheres de branco marcam círculos no pó, para chamar as borboletas que se levantam da terra e giram, como asas de vento breve, no azul da manhã. As mulheres circulam o branco dos vestidos pela cintura da tarde. Não neva na lua, mas, perto dos grandes lagos, uma mulher-gaivota olha o balão do sol a afundar-se na marítima distância. A mulher vê a palavra afundar-se na barca. O rumor da língua é um alfabeto de murmúrios; um rendilhado de cabelos e de sóis na tarde entrançada. A bailarina é uma princesa e veste de vermelho os cabelos. Só os brincos de princesa lhe caem na neve derretida das palavras e na morna face. Talvez o Outono nos olhe como quem reconhece a palidez da uva. A branca flor da neve na toalha do chá. Talvez chova na Dinamarca uma procissão de olhos; um buraco na neve. As mulheres escrevem no círculo da terra, a saudade do céu. O abismo em espiral por onde todas as asas das borboletas queimaram o azul, arrefece nos dedos. Era tarde, e a lua desaparecia na sombra vertical de uma vara a florir.

Guardaremos



Guardaremos o silêncio
Como um cão sem dono
lambe as feridas e a fome
Nele bordaremos os fios
que o tempo se encarregou de fiar.

Nele teceremos a voz secreta
que ilumina as estrelas
de luz própria
Secreto verbo
Selo mágico
Poema.

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Um sorriso e uma rosa

(Para a Anita... e para a Isabel)



Um sorriso e uma rosa... :)

domingo, 4 de Outubro de 2009

Espiral de Cal e Sal - A Serpente uroborosa


Um ser que se auto-regenera, eterno retorno que alimenta o “fogo com o fogo” e tudo consome na sua eterna dança. A que se vira sobre si mesma em contemplação e solidão consentida. Em ouroboros é a presença do Rei e a Serpente contorcida; a pele perdida para além da forma e do corpo, aparente serpente no vazio que deixa a contorcer-se ainda e a nascer mais adiante. A Serpente que ultrapassa toda as coisas, devorando-as, pela boca de onde nascem. Gesto alquímico que a si mesmo se depura pelo fogo; perpétuo retorno, mito da terra em eterno devir, espiral de azul e cal. Uma tristeza que a cal seca e absorve; uma tristeza em carne viva, caiada e branca, mar seara! Sal. Lágrima do Minotauro. Flor circular, branca como uma mortalha; uma rosa do dia.

Por que canta a cotovia entre as altas ramagens? II




Por que canta a cotovia nas mais altas ramagens?
Para pedir ao sol, suspenso no seu canto, que se detenha;
que aguarde, paciente, a despedida dos amantes,
e chame a voz dos lobos, para ao pé das árvores mais distantes
e à flor da Aurora adormece-a no lago, à luz branca da lua,
Onde dormem os rios e a coisas que se demoram na sombra.

Diz-lhes, aos dias tardos,
Que guardem as palavras mais tristes, como chuva de sinos,
nas mãos das manhãs que não raiaram nunca;
Para que a noite estenda o seu leito de lua e rosa aberta
no chão de um pálido reflexo de heras e flores azuis.


Nos teus braços, prende o dia, amor!
entre abraços, segura a chama do astro ardente
Para que seja plena e sem tempo a noite e o mar...
e a viagem arda no peito, como barco em maré calma
Para ouvir o rouxinol cantar na alma
a noite eterna do riso.


Por que canta a cotovia entre os raios de sol?!
Por que sobem os muros os raios apressados e trazem a luz
que se ergue, entre os amantes, como uma parede
e lhes cega de amor: corpo e voz e alma de ser?!
Porque canta a cotovia entre as altas ramagens,
o meu coração é um sino alarmado
A chamar a tua ausência!
À sombra das árvores reais,
a dupla ausência que nos devolve, em saudade
os jardins silentes; os outonos e os cantos
entre a voz cava dos lobos e a estrela do pó nos girassóis da tarde;
e a estrela da manhã que nos tatua o corpo!...


Por que choram silentes as cotovias nos inexistentes trigais?

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Lua de Outubro - Espelho do rio Tejo


Marinha em seu espelhar
De rio largo, de afogada sede;
De rosto azul na amurada triste!
Em âncora me prendeis: ao alto,
ao arco em asa de gaivota,
Em narciso do mar
me devolveis as asas azuis
para sobrevoar tristezas.


Flor de sal à babugem das águas!
Suave escorrer do dia pelas pontes
levadas dos moinhos
e das manhãs que abrem janelas
para a flor dos vasos;
para o barco atado a uma hora sombria,
dançando sobre a suspensa maré.


Num suspender de voo e de voz
seguras os navios que sobem às arvores
onde Saudades flore em lua
e uma guitarra de vento
levanta a claridade de uma corda
esticada ao máximo
no instante parado!


Abrem-se silêncios na distância;
Rio acima sobe um choro de guitarra
Bebe da luz pura da lua
a futura imagem de um cavalo de fogo
na planície deserta da noite
que cai sobre as paisagens devastadas
do teu rosto sem tempo, a velar o mar
na voz silente de marinheiros cantos.
.